Estive com João de Deus anos atrás. Algumas vezes. Fui levar minha ex-mulher, Adriana, que estava com tumor cerebral de 2 cm de diâmetro e não poderia ser operada. 

João então operou-a de forma “invasiva”. Ela, de pé, naquele palco diante de umas 200 pessoas ou mais. Ele enfiou uma tesoura de uns 20 cm em seu nariz. Rodou sete vezes. Foi filmado. Depois a tomografia constatou que, por “milagre”, o tumor estava calcificando, ou seja, criando uma casca de ovo. Isso tem uns sete anos; o tumor continua encapsulado em uma casca de cálcio, estável.

Naquela ocasião, conheci e conversei algumas vezes com um dos filhos de João. Curiosamente, ele me disse duas ou três vezes que era preciso separar o médium João de Deus do homem João Teixeira. Aos poucos, fui entendendo a razão daquela observação.

Tenho um sítio em Pirenópolis, cidade onde muitas notícias nos chegam de Abadiânia. Primeiro, descobri que João Teixeira é um déspota com os filhos e com as centenas de pessoas que se agregam à sua volta. Até aí, tudo bem.

Ele tem alguns negócios, como mineração. Correm boatos de que ganharia percentual das dezenas de pousadas que vivem em torno da Casa Dom Inácio. Até aí, tudo bem; ele precisa pagar as contas, especialmente porque o Centro Espírita tem despesas muito altas.

O problema, segundo descobri naquela ocasião, é que usava seu prestígio como médium para fazer intermediação de negócios. Quando Lula apareceu com câncer, João fez um tratamento complementar à quimio do Sirio Libanês.

Isso é público. Então teria (uso aqui o condicional em prudência) aproveitado o novo amigo Lula para fazer alguns negócios na área de mineração. Meu sistema de valores, herança do cardecismo da minha família paterna, resguarda fortes restrições ao uso da espiritualidade para fazer negócios.

Mas relevei. Sempre voltava à mente a frase do filho, “é preciso separar o médium do homem João Teixeira”.
Quando vieram à tona as primeiras notícias sobre abuso sexual, de início pensei ser apenas produto da onda do politicamente-correto. Mas observei que os depoimentos são muito consistentes e similares na regra de conduta do João Teixeira. Formei convicção quando li que até mesmo sua filha o processa por abuso (ou estupro).

Enfim, todos os indícios apontam para o fato de que esse João Teixeira vem há anos se aproveitando da fragilidade das pacientes do médium João de Deus. E que centenas de pessoas que vivem à sua volta, que dependem de seu “negócio”, sabiam de tudo. São cúmplices, enfim.

Lamento. E me confesso extremamente triste. Acho que acabou para ele. Acho que a Casa Dom Inácio não vai sobreviver ao lamaçal. É uma pena. Pois milhares e milhares devem a cura às entidades espirituais que operam (ou operavam) por meio do médium João.

Disponível em: https://arepublica.com.br/perspectivas/os-negocios-obscuros-de-joao-de-deus