Um bom jornalista é sobretudo um confessor, espécie de confidente profissional sempre pronto a emprestar o ouvido amigo a fim de obter boas histórias e informações relevantes. Por vezes aproveita da fragilidade do alvo, outras, da vaidade…

Augusto Nunes, comentarista da Jovem Pan, mostrou como se faz uma entrevista em seu encontro com Jair Bolsonaro no hospital. Abstenham o entrevistado (poderia ser o Lula) e observem a técnica apurada do confessor. Obteve informações relevantes e até levou o entrevistado a chorar. Eis o parecer do mestre José Roberto Guzzo, que foi chefe e professor de Augusto:

“Enquanto houver profissionais como Augusto Nunes em atividade na imprensa, o jornalismo não estará morto no Brasil. Sua entrevista com Jair Bolsonaro na Jovem Pan levou ao público informação de primeira qualidade, mostrou o que ninguém tinha mostrado e foi um ato de coragem”.

Augusto também sabe fazer o estilo agressivo quando for pertinente. Refiro-me tanto ao modelo do Roda Viva com os presidenciáveis, quanto aquele protagonizado por William Bonner & Renata Vasconcelos no Jornal Nacional.

É um estilo válido, celebrizado nos anos 1960 a 80 pela jornalista italiana Oriana Fallaci, militante comunista engajada. A esquerda amava aquela agressividade nas entrevistas com líderes internacionais de direita.

Diante de Oriana, uma leoa preparadíssima, Bonner é quase inofensivo. Adeptos de Bolsonaro ou de Haddad não têm que ficar de mi-mi-mi com essas entrevistas-paredão. Pois se o candidato almeja enfrentar predadores como Trump, Putin ou Merkel, é sempre bom passar por essas preliminares locais.

Prefiro o estilo protagonizado por Augusto Nunes na entrevista com Bolsonaro. Talvez porque eu seja melhor com os ouvidos do que os punhos. Mas foi assim, como confidente privilegiado, que consegui construir o livro “A Lei da Selva” (fundamentado em confissões de militares), como também “Borboletas e Lobisomens”, no qual guerrilheiros, militares e camponeses revelam alguns de seus segredos mais ocultos.

Quem quiser aprender como se faz uma aproximação e se estabelece a empatia (as organizações hoje chamam de rapport), indico o filme “Frost-Nixon”, de 2008, que relata todo o processo de construção da célebre entrevista na qual o jornalista David Frost consegue arrancar lágrimas e a confissão de culpa do ex-presidente Richard Nixon. Compartilho, como degustação, um trecho do filme.

https://www.youtube.com/watch?v=vFHYiOfBRng