Tese é defendida pelo historiador Hugo Studart, no livro ‘Borboletas e Lobisomens’

Por: Mariana Londres/ R7.

No livro ‘Borboletas e Lobisomens’, o historiador e jornalista Hugo Studart traz algumas conclusões inéditas sobre a Guerrilha do Araguaia. A obra tem sido alvo tanto de críticas quanto de elogios ao reconstituir o movimento de luta armada formado pelo PCdoB às margens do Araguaia no início da década de 70 para combater o regime militar.

Uma das conclusões do autor, após quase uma década de pesquisa e análise de documentos inéditos e de entrevistas com sobreviventes, é que a maior parte dos jovens estudantes recrutados pelo partido para formar a guerrilha na região não sabia que iria para o interior do Brasil para pegar em armas e enfrentar o regime.

— Colhi depoimentos orais dos guerrilheiros sobreviventes, que disseram que sabiam que estavam indo para o trabalho político no campo, mas não sabiam onde nem o que era por questões de segurança. Apenas cinco membros da executiva do partido sabiam. Alguns até imaginavam, mas outros pensavam que iriam fazer trabalho social. Eles, portanto não eram informados explicitamente da luta armada.

Ao longo das cerca de 600 páginas, Studart narra como a guerrilha foi dizimada pelo Exército. E relata que no final do conflito os jovens que ainda estavam na mata ficaram em situação de extrema vulnerabilidade, sem comida, doentes e magros, lutando pela sobrevivência e querendo sair dali. Outra polêmica é que o autor chama três comandantes de ‘desertores’.

— Três comandantes desertaram, e eu uso a palavra desertar. O primeiro foi João Amazonas, que foi tratar os dentes e não voltou. Nas conclusões eu digo que foi um ato de covardia. A ordem era: ou traz a bandeira da vitória ou deixa os ossos por lá. Mas quando os militares chegaram ele foi embora para São Paulo, cortou as linhas de abastecimento e as linhas de comunicação, e nunca deu notícia. As cartas chegavam do Araguaia para São Paulo, mas não de São Paulo para o Araguaia. A Elza Monnerat também saiu correndo quando chegaram os militares para avisar João Amazonas e não voltou para ajudar os garotos. E o Angelo Arroyo, que com a morte do Maurício Grabois seria o comandante em chefe, mas ele foge. Isso não é conclusão minha. Está nos  documentos do próprios guerrilheiros, que o chamaram de traidor, de desertor, como a carta da guerrilheira Tina, a Dinalva, chegou ao partido, um relato de desespero. Este documento estava em arquivos do partido que foram apreendidos na chacina na Lapa de 1976, e estavam nos arquivos do Dops em São Paulo.

Para o autor, a explicação de que a morte de um dos dirigentes em São Paulo, justamente o que era responsável pela comunicação e abastecimento da guerrilha, não justifica o corte de contato com a guerrilha.

— Danielli [dirigente responsável em São Paulo pela comunicação] foi preso em 1971 e morto e não foi colocado ninguém no lugar dele para fazer contato com a guerrilha. A guerrilha foi exterminada em 1974. O Exército chegou em 1972. O João Amazonas desertou em abril 1972, o Angelo Arroyo desertou em 1974 e nunca se colocou ninguém no lugar. Nas conclusões eu escrevo que eles ficaram sem linhas de abastecimento, sem comida, sem remédio, sem dinheiro, sem comunicação, sem rota de fuga, sem planos, apenas com determinação de trazer a bandeira da vitória ou deixar os ossos por lá. Você tem 53 garotos que deixaram os ossos lá.

Studart rebate as críticas que tem recebido de estar manchando a memória dos guerrilheiros.

— Eu descrevo as vidas, os sonhos e as mortes dos guerrilheiros. Ninguém foi tão fundo contando a vida, o sangue e as mortes.

Disponível em: https://noticias.r7.com/prisma/coluna-do-fraga/estudantes-nao-sabiam-que-iriam-participar-da-guerrilha-do-araguaia-21082018