Parecer do jornalista Mario Nelson Duarte, que foi militante da Polop e do PCB, sobre o livro Borboletas e Lobisomens. Destaco a conclusão do artigo: “Leiam o livro. Depois cobrem de seu autor o que estiver errado, o que não ficou claro, o que precisa ser reexaminado, reescrito. Porque é assim que se faz a verdadeira HISTÓRIA”.

Por Mário Nelson Duarte

Mergulhei, nos últimos dias, nas histórias de “Borboletas e Lobisomens”. Neste livro, Hugo Studart escreve HISTÓRIA, com letras grandes e um trabalho gigantesco de pesquisa, de oitivas, de checagem de informações, de confronto de fontes.

Ele tece um painel exuberante de uma página trágica da nacionalidade brasileira, em que há vários lados “do mal” envolvidos e apenas um digno de piedade e de respeito, porque foi duplamente vítima: os mais jovens.

A principal diretriz estratégica marxista é a aliança operária-camponesa-estudantil. Nela, dois segmentos consolidados da sociedade (o campesinato e o proletariado urbano) são compostos por adultos, profissionais maduros nas respectivas áreas. O terceiro grupo é da juventude, isenta de formação profissional concreta ou, no máximo, recém-graduada e ainda com os pés na movimentação gremista ou universitária. E sua generosidade impetuosa é a massa de manobra que faz dela o que o povo chama de “bucha de canhão”.

Na Guerrilha do Araguaia – e isso fica absolutamente cristalino no trabalho de Studart – há dois vilões bem formatados: primeiro, os militares, que foram além da simples repressão, praticando um massacre covarde, sistemático e impiedoso contra aqueles rapazes e moças perdidos, famintos, mal-armados e submetidos a todo tipo de pressões e carências. O melhor retrato do farrapo a que muitos foram reduzidos é que, ao se renderem ou serem aprisionados, seu aspecto físico lembrava as figuras das vítimas dos campos de concentração nazistas, ao serem resgatados pelas tropas aliadas.

E, culminando essa tragédia, seguiam-se dias e noites de espancamentos, torturas, sofrimentos brutais – até serem mortos, decapitados, jogados em covas rasas ou simplesmente “largados” no meio da mata.

Os outros vilões foram os mentores daquela aventura irresponsável, criminosamente leviana, que os retirou de suas famílias, de suas carreiras, de seus estudos, para usá-los em planos e projetos delirantes, sem qualquer chance concreta de vitória. E entregá-los à própria sorte. À morte.

Os protestos contra o lançamento do livro, na terça-feira, dia 14, condenavam a obra, em si, através de insultos a seu autor e palavras-de-ordem. Uma parte dos manifestantes estava, ali, agindo com a mesma entrega impulsiva dos guerrilheiros massacrados – mas a outra queria esconder o que seus próprios dirigentes haviam feito e escrito, coisas que “Borboletas e Lobisomens” afirma, prova e comprova. São 658 páginas repletas de documentos, de todos os lados envolvidos e/ou atuantes. Cada uma delas merece e exige uma leitura atenta, daquelas que a pessoa volta a parágrafos anteriores, para contextuar os seguintes.

Gostaria de destacar vários trechos, mas isso demandaria um espaço ainda maior do que o ora utilizado. Vou ficar com apenas dois, do comando da guerrilha. O Exército já agia na área, muitos jovens já estavam mortos ou aprisionados, comer era a maior dificuldade e também a maior necessidade dos sobreviventes – mas o chefe garantia: “Numa das aulas do curso de preparação militar dizíamos que, iniciada a guerrilha, esta passaria por um ponto crítico, a partir do qual não seríamos mais derrotados. Não temos dados suficientes para afirmar que ultrapassamos tal ponto, mas podemos desde já asseverar que atingimos uma situação em que só seremos derrotados se cometermos graves erros”.

Ora, TUDO ali era um erro grave, começando pela própria concepção da aventura, que mandava os rapazes e as moças esperarem as armas que “o Exército levaria”. Ou seja, eles teriam de matar tropas profissionais, em contingentes numericamente superiores, para tirar de seus cadáveres as armas que usariam nas ações seguintes. Acho que comentários são dispensáveis.

Àquela altura, as Forças Armadas já estavam articulando a Terceira Campanha – e a coisa ia sempre piorando para os guerrilheiros, esfaimados, ao ponto de precisarem caçar e matar “na unha” os animais, porque, se usassem espingardas, denunciariam sua posição e o massacre seria inexorável. O destacamento que “esqueceu” essa cautela foi cercado e morto.

Mas o chefe não aceitava a realidade, ao contrário, Para ele, as tropas do Exército, dos Fuzileiros e da Aeronáutica eram um “tigre de papel”. E fazia uma crítica delirante e suicida (e homicida, porque levaria todos os guerrilheiros à morte): ”As forças repressivas têm espírito defensivo, revelam displicências, afoitezas e total falta de vigilância (…) Conclusão: se as forças guerrilheiras aplicam fielmente nossa concepção militar, se souberem usar habilmente a tática de guerrilhas, o inimigo não passará de um tigre de papel”.

Pouco depois, o “tigre de papel” devorou todos os guerrilheiros. Os que não fizeram acordos de delação premiada estão mortos. E os que não apareceram ainda como “mortos” causam ainda mais dor às respectivas famílias, porque nem seus ossos elas puderam velar e sepultar.

No “escracho” de terça-feira, muitos estavam realmente exigindo o direito de saber de seus filhos, de seus irmãos “desaparecidos” na guerrilha. Mas alguns outros decerto gostariam de impedir, se possível queimar, os exemplares de “Borboletas e Lobisomens”. Porque os erros e a irresponsabilidade louca de líderes (sem qualquer sentido de piedade por seus próprios seguidores) são denunciados por eles mesmos. De próprio punho.

Leiam o livro. Depois cobrem de seu autor o que estiver errado, o que não ficou claro, o que precisa ser reexaminado, reescrito. Porque é assim que se faz a verdadeira HISTÓRIA.