Parecer do escritor Antonio Nahas, ex-militante das organizações da luta armada Colina e VAR-Palmares (as mesmas organizações. de Dilma), e autor de “A Queda”, obra sobre a luta armada. Destaco o trecho do artigo: 

“Hugo deixa também muito clara sua admiração pelos indivíduos que trilharam este caminho nas suas vidas. Estes – os indivíduos – são o objeto do seu trabalho extraordinário, onde abunda informações precisas de boa parte destas pessoas que se embrenharam nas profundezas da mata amazônica. Estes indivíduos, verdadeiros Argonautas em busca do seu velocino de ouro, enfrentariam provações sem conta; conviviriam com a morte de seus amigos; com o abandono de seus companheiros e veriam seus ideais esfumaçarem-se. Suas vidas, seus valores, seus dilemas, são a matéria prima do livro”.

BORBOLETAS E LOBISOMENS

Por: Antonio Nahas

Estou começando a ler o livro Borboletas e Lobisomens, de Hugo Studart, e ele traz para quem já doou parte de sua vida à militância política, memórias, recordações, angustias inquietações e muitas perguntas ainda sem resposta.

Após uma abertura horripilante, o livro volta ao passado, mais precisamente a meados do século XX, na década de 50 quando a União Soviética ainda existia e Stalin, ditador sanguinário, mas cheio de prestígio pela vitória sobre os nazistas na Segunda Guerra Mundial, ainda reinava.
Hugo descreve a puxação de saco em torno dele no XIX Congresso do Partido Comunista, citando depoimento de Diógenes Arruda, que esteve presente no Congresso: ”O velhinho (Stalin) ficava sentado ali, e todo mundo o olhava com carinho. Os médicos o tinham proibido de fumar, mas o carinho dos camaradas soviéticos é tamanho que o camarada general Proskriebichiev… ia lá com seu cachimbo fumegante… passa-lo por baixo das narinas do camarada Stalin”.

Até então, os dogmas do centralismo democrático; da ditadura do proletariado; do partido único; da teoria do socialismo num só país eram inabaláveis, juntamente com o medo e temor que sustentavam aquele ditador terrível.
Porém, logo após sua morte, Kruschev, que o substitui, quebra o mito, enuncia os crimes de Stalin e mergulha o movimento comunista internacional em profunda crise, da qual nunca sairia.
É daí que surge o PCB do B. Homens de partido, nascidos nas engrenagens de uma burocracia infernal, dedicados inteiramente à atividade partidária, alienados do mundo que os cercavam, comungando deveres e valores, sem nenhuma inserção no mundo real, acabam por retirar-se do antigo partido comunista e formar o seu PC do B.

Os dissidentes eram homens agarrados ao passado, incapazes de perceber a evolução pela qual passava o mundo capitalista. Mas eram valorosos, corajosos, disciplinados, determinados e dotados de uma firmeza extraordinária.

É neste quadro que o PC do B se firma como partido e traça seu plano que desaguaria na guerrilha do Araguaia.
Hugo, nas entrelinhas faz notar suas diferenças, seja com o marxismo, seja com os marxistas, o que não impede a objetividade da sua análise.

Mas Hugo deixa também muito clara sua admiração pelos indivíduos que trilharam este caminho nas suas vidas. Estes – os indivíduos – são o objeto do seu trabalho extraordinário, onde abunda informações precisas de boa parte destas pessoas que se embrenharam nas profundezas da mata amazônica.

Estes indivíduos, verdadeiros Argonautas em busca do seu velocino de ouro, enfrentariam provações sem conta; conviviriam com a morte de seus amigos; com o abandono de seus companheiros e veriam seus ideais esfumaçarem-se.
Suas vidas, seus valores, seus dilemas, são a matéria prima do livro.

A guerrilha do Araguaia ganha assim uma nova história, mais detalhada, mais precisa, enriquecendo a historiografia brasileira.

Hoje, o mundo socialista desabou. A União Soviética esfacelou-se e a China tornou-se uma potência econômica internacional.

Por isso mesmo é sempre bom lançar um olhar sobre o passado, que nos revela tanto sobre os dilemas do presente.
Estou apenas começando. Vamos ver o que tem pela frente.

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