Livro revela segredos, sonhos, intimidades e lutas dos guerrilheiros do Araguaia e deixa evidentes os crimes cometidos pelas Forças Armadas contra os guerrilheiros e os camponeses que habitavam a região

Por:  Moacyr Oliveira Filho/ Ultrajano.

Esse é o título do livro do jornalista e historiador Hugo Studart(foto) contando as vidas, os sonhos e as mortes dos guerrilheiros do Araguaia, lançado este mês, que tem provocado polêmicas e reações exaltadas, principalmente dos militantes de Direitos Humanos e de Comissões de Familiares de Mortos e Desaparecidos.

Eu tenho uma forte relação afetiva e política com a Guerrilha do Araguaia. Primeiro, porque Cilon Cunha Brum, o Comprido, que oficializou meu recrutamento numa base universitária do PCdoB em 1970, morreu no Araguaia, onde era o Simão. Um belo dia, num dos nossos pontos semanais, na Rua da Consolação, na porta do Cine Belas Artes, ele se despediu, dizendo que estava sendo deslocado para outra tarefa partidária. Nunca mais o vi nem tive notícias dele. Na época, nós, militantes, não sabíamos da existência do Araguaia. Apenas ouvíamos falar que o partido estava preparando uma luta armada, mas não sabíamos onde.

No começo de maio de 1972, fui preso pelo DOI-CODI do II Exército, numa queda que atingiu vários militantes universitários do partido. Quando começaram as primeiras quedas, no nosso imaginário coletivo, cair na clandestinidade parecia ser o único caminho para escapar da repressão. E cair na clandestinidade significava ir para a luta no campo.  Só não sabíamos que essa luta era no Araguaia. E muito menos que, semanas antes, no dia 12 de abril, as primeiras tropas do Exército desembarcaram no Araguaia para começar o ataque à Guerrilha. Não havia mais saída.

No DOI-CODI, ainda sem saber da existência do Araguaia, fui torturado insistentemente para dizer onde estava Cilon. Como não sabia, levei alguns dias apanhando, até que os torturadores se convencessem de que eu realmente não sabia e as torturas pararam.

Só anos depois, já com a Anistia, quando começaram a surgir os primeiros relatos e informações sobre o Araguaia, vi a foto do meu amigo Cilon como um dos mortos na Guerrilha do Araguaia.

O livro de Hugo Studart, baseado numa tese de Doutorado na UnB, que ganhou o Prêmio UnB de Teses 2015 – categoria História e foi finalista do Prêmio Capes de Tese de História, causa polêmica porque revela alguns segredos até então desconhecidos que incomodaram os militantes de Direitos Humanos, alguns familiares de Mortos e Desaparecidos e, especialmente, o PCdoB.

No entanto, considero que as críticas são exageradas, resvalam para o tom panfletário e parecem ter sido feitas por quem não leu o livro, apenas os comentários e matérias veiculadas pela imprensa.

O livro em nenhum momento é ofensivo à imagem dos guerrilheiros, tampouco tenta justificar a violência das Forças Armadas, como disseram alguns. Muito pelo contrário. O livro é absolutamente respeitoso com os guerrilheiros, sua imagem junto à população e sua luta. Por mais que às vezes revele histórias e episódios incômodos. E é absolutamente claro e preciso ao denunciar as violências e os crimes cometidos pelas tropas – torturas, prisões ilegais, decapitação, assassinatos, ocultação de cadáveres, perseguição e violências contra camponeses e moradores da região.

Está longe, portanto, de ser uma provocação direitista ou um porta-voz dos porões da ditadura militar, como disse, por exemplo, o historiador oficial do PCdoB, Oswaldo Bertolino, que escreveu uma longa, e exagerada, crítica ao livro, na qual dedica mais tempo a rebater a opinião de Hugo Studart de que o PCdoB foi fundado em 1962, e não reorganizado após o racha com os partidários de Prestes, como defende o partido, do que a comentar as revelações do livro sobre o dia a dia dos guerrilheiros.  Debate esse, aliás, absolutamente secundário nos dias de hoje.

Chamar o livro de Studart de provocação é um exagero panfletário, indigência intelectual ou má fé. E quem diz isso não leu o livro. Como pode ser provocação um livro que é prefaciado por José Geraldo de Souza Junior, ex-reitor da UnB, um dos mais lúcidos, sérios, aguerridos, progressistas e dedicados acadêmicos de nossa geração?

O livro, no entanto, comete dois equívocos, na minha opinião, mas que não chegam a comprometer o conjunto da obra.

O primeiro deles é defender a tese de que se o Estado brasileiro ainda não abriu seus arquivos sobre o Araguaia, o PCdoB também não abriu os seus. Ora, o PCdoB não tem arquivos sobre o Araguaia e os poucos documentos que possuía – como o Relatório Arroyo, o Relatório Pomar, o Diário de Grabois, cartas, poesias e outros materiais – foram recolhidos pela repressão, após o ataque à casa em que o Comitê Central discutia uma avaliação do Araguaia, no episódio conhecido como Chacina da Lapa, onde morreram Pomar, Arroio e JB Drummond. Boa parte desses documentos hoje já foi publicada em livros e reportagens. Quem tem o dever de abrir seus arquivos é o Estado brasileiro.

Outro equívoco é a avaliação de que a direção nacional do PCdoB após o ataque dos militares deixou os guerrilheiros entregues à própria sorte, cortando as linhas de suprimento, apoio, comunicação. Embora esse debate em certo momento tenha sido travado na própria direção do Partido, como na reunião da Lapa, por exemplo, onde havia duas posições divergentes, a de Pomar e a de Arroio, o fato é que isso aconteceu, principalmente, porque a repressão nas cidades dizimou os principais dirigentes, entre eles Carlos Danielli, morto sob tortura no DOI-CODI DO II Exército em dezembro de 1972, e deixou o partido sem nenhuma condição de manter canais de comunicação com o Araguaia, igualmente sob forte ataque dos militares. E isso Hugo Studart parece não levar em consideração na sua avalição.

Finalmente, um outro deslize. Se o prefácio do professor José Geraldo de Souza Junior dignifica e recomenda a obra, o posfácio do diplomata Paulo Roberto de Almeida, pelo tom panfletário e tendencioso, é totalmente desnecessário e pouco contribui com o livro. Esse sim é um texto provocador, ao dizer que ao PCdoB deve ser imputada uma condenação maior do que à das Forças Armadas pela tragédia do Araguaia. Um evidente exagero.

Mas o mais importante do livro é a identificação dos locais em que foram enterrados os corpos de vários guerrilheiros, cujas famílias esperam até hoje por isso e pela entrega dos restos mortais. Com a palavra, o Ministério da Justiça, a quem cabe coordenar as escavações nesses locais para que os corpos sejam finalmente identificados.

 

Disponível em:

Borboletas e lobisomens