SONATA PARA CARMEN¹

Carmen Navarro Rivas atravessou quatro décadas à espera de uma música. Qual? Ora, ela nunca contou, jamais revelou. É um segredo, um dos mais fechados dentre os arquivos secretos da ditadura militar brasileira. Mas a espera foi torturante. Carmen aguardou a chegada dos acordes que seu filho Hélio Luiz Navarro de Magalhães compôs antes de partir. A última vez que se viram foi em 1970. Hélio tocou-lhe a composição e partiu. Tinha 21 anos. Foi se juntar a um punhado de estudantes que montavam uma guerrilha na região do Araguaia. Era estudante de Química, falava francês, tocava piano e compunha músicas. Adotou o codinome de Edinho e aprendeu sozinho a tocar flauta. Hoje figura na lista dos 243 desaparecidos da ditadura[2].

O coração de mãe, as informações que apura, tudo dá conta que Hélio Luiz sobreviveu à aventura e que atravessou mais de quarenta anos resguardado sob a identidade que lhe arrumaram os militares. Por muitos anos Carmen alimentou a esperança de abraçar o filho ao menos uma vez. Em fins de 2016, aos 87 anos, lúcida, culta e bem informada, estava conformada em receber um singelo sinal de vida – a música que lhe compôs antes de se transformar num “desaparecido”. Somente os dois conhecem os acordes. Poderiam chegar por e-mail anônimo, ou via CD postado no Correio. Ela só esperava esse acalento.

A história por trás desse drama é delicada – e provoca tantas fúrias quanto são as lágrimas derramadas por Carmen. Já é aceito, historicamente, que em fins de 1973, depois de duas campanhas militares dentro das Leis da Guerra, o presidente Emílio Médici deu ordens ao Exército para caçar e aniquilar por completo os 47 guerrilheiros que ainda lutavam no Araguaia. Não queria ninguém vivo. Coube a Ernesto Geisel, seu sucessor, cumprir a ordem.

Ocorre que pelo menos sete deles teriam sido poupados. Uso aqui os verbos na condicional, em sinal de prudência acadêmica. Esses guerrilheiros, que passaram a ser chamados de “mortos-vivos” pelos militares, teriam feito acordo (hoje chamado de delação premiada) e recebido novas identidades. Tal qual ocorre nos decantados programas de proteção às testemunhas dos Estados Unidos, pelo acerto, não poderiam sequer procurar suas famílias. Teriam que “morrer” da antiga vida e “renascer” com outra história. Alguns seguiram a ordem com rigor, como Hélio Luiz.

A Operação Mortos-Vivos encontra-se nas categorias dos chamados “segredos de Polichinelo”, inclusive com alguns dos nomes dos sobreviventes conhecidos há quatro décadas por grande parte dos antigos militares da repressão, e há mais de vinte anos pelos militantes dos Direitos Humanos. O ex-ministro Jarbas Passarinho já revelou, reafirmou e confirmou em entrevistas à imprensa a existência dos “mortos-vivos”; contou ainda que empregou dois deles no Ministério da Educação e Cultura, MEC, quando era o titular da pasta no governo de Emílio Médici.

Em janeiro de 2011, o Ministério da Defesa e a Advocacia-Geral da União entraram com pedido junto à Justiça Federal para que a Polícia Federal investigue a possibilidade de alguns dos guerrilheiros que constam na lista dos desaparecidos políticos, na verdade, terem sobrevivido. A juíza Solange Salgado, da 1ª Vara da Justiça Federal em Brasília, responsável pela sentença que obriga a União a procurar pelos desaparecidos do Araguaia, acatou o pedido e expediu ordem à Polícia Federal para que investigue e localize esses possíveis sobreviventes[3]. Contudo, por pressão de alguns familiares dos desaparecidos, que se apresentaram em nome de todas as famílias, a investigação sequer começou.

O filho do almirante

Mas quem seriam os mortos-vivos? O caso mais conhecido envolve Hélio Luiz e os dois companheiros que com ele foram presos, Luiz Renê Silveira, o Duda, e Antônio de Pádua Costa, o Piauí. Hélio Luiz é filho de um oficial da Marinha, Hélio Gerson Meneses de Magalhães, capitão de mar e guerra em 1974, equivalente a coronel no Exército. Mais que isso, Hélio é sobrinho do almirante Gualter Meneses de Magalhães, um anticomunista que durante o governo Médici era o comandante em chefe da Esquadra Brasileira – e, no governo Geisel, seria promovido a chefe do Estado-Maior da Armada, ou seja, o vice-ministro da Marinha. Enfim, Gualter era um dos nomes proeminentes da linha-dura, sucessor ideológico do almirante Augusto Rademaker[4].

Desde que Hélio Luiz despediu-se da mãe, em 1970, o comandante Magalhães e o almirante Gualter vinham pedindo notícias ao Cenimar. As notícias foram chegando aos poucos. Primeiro, souberam que Helinho entrara para o PC do B, no Rio de Janeiro. Depois, que dezenas de militantes do partido vinham entrando na clandestinidade, provavelmente para preparar alguma ação armada rural. Mas não se sabia onde. Até que, em abril de 1972, descobriram os preparativos para a futura guerrilha no sul do Pará.

Ao ser preso, em abril de 1972, o guerrilheiro Danilo Carneiro, o Nilo, descreveu um camarada, codinome Edinho, com características similares às de Hélio Luiz. A certeza só viria com a série de depoimentos de Criméia Alice de Almeida, a Alice, presa em dezembro de 1972, em São Paulo. A partir de então, o Cenimar passou a cobrar do CIE, periodicamente, notícias sobre o filho do comandante Magalhães.

Os pedidos de informações prosseguiram ao longo de 1973. Com o início da Terceira Campanha, o Cenimar intensificaria a pressão. Quando começaram as execuções de prisioneiros, em janeiro de 1974, praticamente toda a semana um oficial do Cenimar ia pessoalmente ao CIE a fim de pedir Hélio Luiz de volta. Vivo, obviamente.

O interlocutor no CIE era o tenente-coronel Leo Frederico Cinelli, analista de informações, especializado em PC do B, que acompanhava de perto as operações no Araguaia. Considerado “intelectual” entre seus pares, com cultura política acima da média militar, passava muito tempo no Araguaia, em especial nos três primeiros meses da Operação Marajoara[5].

Na juventude, Cinelli fora amigo de Carmen Navarro. Por tabela, tornou-se também amigo de seu marido. Era tão próximo da família que tentou convencer o jovem Hélio Luiz a entrar para a Academia Militar das Agulhas Negras, AMAN. Contudo, desde 1967, Helinho já estava envolvido no movimento estudantil e no turbilhão de rebeldia que tomava conta da Zona Sul do Rio de Janeiro. Assim, acabou entrando para o curso de Química na UFRJ e, daí, para o PC do B.

O fato é que Cinelli assumiu a missão de tentar entregar Helinho aos pais. Em seus contatos diários por telefone ou rádio com as equipes de inteligência no Araguaia, informou sobre a existência do filho do colega. Espalhou-se entre os militares que estavam no Araguaia a informação de que havia um guerrilheiro que era “filho de almirante”, e que a ordem do CIE era apanhá-lo vivo. Na verdade, como já dito, Hélio Luiz não era filho, mas sobrinho de almirante. Contudo, no imaginário dos militares havia um “filho de almirante” entre os guerrilheiros. Mas não sabiam qual o nome do almirante. Nem do guerrilheiro.

A queda de Edinho

O guerrilheiro Edinho seria preso em fins de fevereiro de 1974, tentando escapar da região. Estava em companhia de Duda quando foi avistado por uma equipe que rastreava de helicóptero a área da corrutela de Chega com Jeito, região do Destacamento A. O helicóptero desceu com as metralhadoras atirando. Edinho foi atingido no ombro – nada grave, ardeu muito, mas foi de raspão. Portava uma espingarda de caça, montada pelo guerrilheiro Ari Armeiro. Duda se entregou. Estava desarmado. Apavorado com o ferimento e o cerco dos militares, Edinho teria começado a gritar: “Não quero morrer, não quero morrer, chama meu pai que é oficial da Marinha.”

Os dois foram levados de helicóptero para a Base de Bacaba. Examinado por um médico, Edinho recebeu curativos e uma tipoia. Horas depois, também chegaria à Bacaba o guerrilheiro Piauí, preso em outro ponto da floresta. Na Base de Bacaba, imediatamente espalhou-se que haviam prendido o “filho do almirante” e que era para lhe dar tratamento diferenciado. Os três foram interrogados. Edinho e Duda, somente conversas. Piauí sofreu violências leves, mas não chegou a ser torturado. Foi nesse momento que Edinho revelou que, além de filho de oficial da Marinha, tinha um “padrinho” no Exército. E apontou o nome de Cinelli.

Coube ao major Leônidas Soriano Caldas, codinome Dr. Ribamar, chefe das equipes de inteligência[6], comunicar a Cinelli, em Brasília, sobre a prisão dos três guerrilheiros. Naquele momento, os dois tinham por missão fazer a interlocução entre o CIE e as operações no Araguaia. Cinelli, por sua vez, contou a boa nova a seus interlocutores do Cenimar.

O almirante Fernando Rocha Paranhos, chefe do Cenimar, designou o comandante Lameira, à época capitão de corveta (equivalente major), para a missão de resgatar o filho do colega. Ele era um veterano da área de inteligência. Em 1967, por exemplo, Lameira estivera na repressão à guerrilha da Serra do Caparaó, Espírito Santo, organizada por um grupo de seguidores do ex-governador Leonel Brizola.

Já nas primeiras conversas de Lameira com seus colegas do CIE – o coronel Carlos Sérgio Torres, chefe de Operações em Brasília, e Leo Cinelli – constatou-se que não seria simples a retirada de Hélio Luiz da guerrilha. E o grande problema já não seria com os militares, e sim com o PC do B. Naquele momento histórico, as esquerdas estavam executando seus próprios companheiros suspeitos de traição ou de práticas antirrevolucionárias.

Se Hélio Luiz fosse libertado, como explicar isso ao partido? Os três guerrilheiros presos em Bacaba haviam sido vistos por uma centena de pessoas, entre militares e moradores da região. Seria uma questão de tempo descobrir que o Exército deixara um deles sair vivo do Araguaia, que era filho de um oficial da Marinha e sobrinho de um dos próceres da linha-dura. Era grande a possibilidade de que Helinho viesse a ser justiçado como traidor.

Chamaram para a conversa o tenente-coronel Cyro Etchegoyen, então chefe da Contrainteligência do CIE em Brasília. Cinelli aproveitou para perguntar se ele, Cyro, gostaria de conversar com os outros dois guerrilheiros que haviam caído. Sim, Cyro respondeu que queria vê-los. Cinelli então ligou para o major Caldas, na Casa Azul, a fim de comunicar que Cyro queria falar com Duda e com Piauí. Foram poupados da execução imediata.

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O procedimento no Araguaia era levar os prisioneiros para as bases de Bacaba ou Xambioá, onde prestavam as primeiras informações, geralmente interrogados por sargentos da área de inteligência. Era nas bases que as torturas aconteciam. Em Xambioá, os interrogatórios eram quase sempre na marcenaria Marcelinense, à beira do rio Araguaia, perto da localidade dos Caianos[7]. Já em Bacaba, os prisioneiros eram interrogados em uma construção provisória na cabeceira da pista de pouso. Enquanto isso, o CIE em Brasília providenciava um dossiê sobre suas atividades políticas dos respectivos prisioneiros, tanto a atuação nas cidades, quanto no Araguaia. Quando o dossiê chegava, os prisioneiros, já “amaciados”, eram então levados para o interrogatório na Casa Azul, geralmente conduzido por um oficial superior. A tortura era evitada em Marabá; lá, a opção preferencial era por conversa.

Os militares procederam também com os prisioneiros Edinho, Duda e Piauí. Os três guerrilheiros passariam cerca de uma semana em Bacaba. Desde o início, Edinho e Duda mostraram-se dispostos a colaborar. Piauí foi um pouco reticente nas primeiras horas. Mas logo mudaria de posição. Depois, foram levados para a Casa Azul, em Marabá. Cinelli chegou de Brasília para, acompanhado de um oficial do CIE, interrogar os três prisioneiros. Até aquele momento, Edinho estava com muito medo de ser executado. Quando viu o padrinho, mostrou-se aliviado.

Logo que se mudou para o Araguaia, Edinho enfrentou dificuldades de adaptação à vida na selva. Como tinha uma capacidade de calcular distâncias com grande precisão, passou a contar e a memorizar cada passo em suas incursões na floresta. Ganhou o apelido de “Passômetro”. Passaria a ser reconhecido como um dos guerrilheiros que melhor se movimentavam na mata. Por isso ganhou a missão de organizar os depósitos de mantimentos, armamentos e medicamentos escondidos em pontos de difícil acesso. Seu assistente na função era Duda.

Depois de fecharem acordo de colaboração, Edinho e Duda passariam cerca de duas semanas mostrando aos militares onde estavam escondidos os depósitos de suprimentos. Por vezes iam juntos, por vezes separados. Duda fez mais: também guiou patrulha militares na caça aos companheiros – de acordo com as lembranças de militares e de camponeses, em relatos à pesquisa, entre eles, Iomar Galego, Jacó Gaioso e Cícero Venâncio, que chegou a manter longas conversas com Duda.

No caso de Piauí, deixou a Casa Azul e foi entregue aos paraquedistas acantonados na Base de São Raimundo. Passaria entre duas e três semanas servindo de guia. Restam três fotografias nas quais aparece guiando os militares. Estavam em slides-monóculos em poder do camponês Raimundo Nonato dos Santos, Peixinho, que primeiro serviu de apoio aos guerrilheiros, depois foi guia dos militares[8]. Em duas delas, Piauí está sentado, descansando. Na outra, está dentro de um helicóptero.

Fator Rosinha

Rosinha foi presa no mesmo período de Edinho e Duda, com interregno de três dias, no máximo cinco. Nascida Maria Célia Corrêa, criada em Copacabana, Rio de Janeiro, era estudante de Ciências Sociais na Faculdade Nacional de Filosofia. Fazia parte de um pequeno núcleo de militantes do PC do B na Zona Sul do Rio, integrado por seu irmão, Elmo Corrêa (Lourival), sua cunhada Telma Regina Cordeiro Corrêa (Lia), e o namorado, João Carlos Wisnesky (Paulo). Elmo e Telma seguiram para o Araguaia. O namorado João Carlos foi depois.

Na sequência, a direção do partido permitiu que Maria Célia seguisse junto. No Araguaia, era integrante do Destacamento A, onde já estava o namorado Paulo. Em meio às crises existenciais da floresta, separou-se de Paulo e iniciou um relacionamento com Nunes (Divino Ferreira de Souza), de quem ficou grávida e foi obrigada, pelo comandante Zé Carlos, a submeter-se a um aborto – conforme já narrado no Capítulo “Amor e sexo em tempos de guerra”.

Quando fevereiro de 1974 chegou, ela decidiu escapar do Araguaia. Foi assim que conseguiu se descolar dos companheiros e chegar à casa de Manoelzinho das Duas. Ele era um conhecido simpatizante dos militares; sua posse, por sua vez, era um ponto de apoio do Exército. Existe a possibilidade de Rosinha ter procurado Manoel justamente para capitular. Ou pedir ajuda, restaurar forças e prosseguir na fuga. Segundo o camponês, ele tentou convencê-la a se entregar. Ela teria reagido e dito: “Prefiro morrer a me entregar”, de acordo com a reconstituição do episódio feita por Taís Morais e Eumano Silva, em Operação Araguaia. Manoel então a domina e a entrega na Delegacia de Polícia de São Domingos. Esquelética, faminta, imunda. Ficou dentro de um automóvel parado em frente à delegacia, imóvel, enquanto aguardava pelos militares.

Rosinha chegou à Base de Bacaba completamente prostrada. Com tanta fome que delirava. Os militares avaliaram que ela não teria a menor condição de prestar o depoimento preliminar e decidiram enviá-la direto para a Casa Azul a fim de receber tratamento médico. Dias depois, em seu interrogatório, disse que fora para o Araguaia a fim de acompanhar o namorado; que tinha lá suas convicções políticas, mas não sabia que estava entrando na luta armada. Contou ainda a história do aborto que fora obrigada a fazer, o que a teria deixado revoltada com seus comandantes. Desde então, argumentou, queria deixar a guerrilha, mas tinha medo de ser justiçada. Queria muito voltar para casa. Enfim, Rosinha estava em luta pela Vida como Bem Supremo.

O dilema de executar ou poupar Maria Célia teria então tomado conta dos oficiais que estavam na Casa Azul. Em A lei da selva, já havia registrado: “Teria havido um debate entre os próprios militares sobre a necessidade ou não de executá-la, já que, argumentavam alguns oficiais, Rosa não oferecia perigo.” Ou seja, a guerrilheira havia conseguido estabelecer a empatia com a maior parte dos chefes militares. Ficaram com pena dela, dor na consciência, muito mais do que com o caso de Edinho.

 

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Naquele momento, relevante contextualizar, estava havendo um hiato de poder. Aquela ordem de não fazer prisioneiros, efetivada sob o eufemismo “ninguém sai de lá”, fora dada pelo ministro Orlando Geisel ao general Milton Tavares, então chefe do CIE, depois de consultar o presidente Médici. Contudo, já havia um novo presidente a postos, Ernesto Geisel, que assumiria o poder a 15 de março de 1974. E um novo ministro do Exército anunciado, Sylvio Frota. Quanto ao chefe do CIE, o general Confúcio de Paula Avelino, já havia assumido em janeiro e deveria permanecer no posto por dois anos.

O fato é que, na virada de fevereiro para março de 1974, ninguém no CIE ou na Casa Azul sabia exatamente qual seria a nova diretriz sobre os prisioneiros. Foi nesse raro momento histórico que o general Confúcio decidiu discutir a pertinência de uma operação para poupar a vida de alguns guerrilheiros. Leo Cinelli defendeu que só importavam de fato o triunvirato da direção do partido, formado por Pedro Pomar, Maurício Grabois e João Amazonas, além de Ângelo Arroyo, Elza Monerat, Osvaldão e Dinalva. Quanto aos demais, que fossem julgados pela Justiça Militar e cumprissem um tempo de prisão.

Carlos Sérgio Torres estaria refratário a poupar a vida de muitos; seria uma desobediência às ordens superiores. O tenente-coronel Flávio Demarco, Tio Caco, coordenador-geral da Operação Marajoara, por sua vez, apresentou a ideia de trocar a identidade dos prisioneiros. Ou seja, registrariam mortes nos documentos e criariam histórias de cobertura para “esquentar” mortes simuladas. Mas os sobreviventes mudariam de identidade, seriam outras pessoas. De alguma forma, os guerrilheiros estariam “mortos”.

O precedente Armeiro

Ademais, havia um precedente a considerar: Ari Armeiro (Marcos José de Lima). Ele fora preso em setembro de 1972, logo nos primeiros dias da Segunda Campanha. Passou vários dias na Casa Azul, quando disse que gostaria de deixar a guerrilha, mas que não poderia sob pena de justiçamento. Relatou ser primo do guerrilheiro Zebão (João Gualberto Calatroni), com quem estaria rompido por questões pessoais. Também relatou os tipos de armas que construía com material improvisado e onde estavam os depósitos de munição.

Estava guiando a patrulha do Exército que encontrou e matou os guerrilheiros Juca (João Carlos Haas Sobrinho), Flávio (Cyro Flávio Salaza) e Gil (Manoel José Nurchis), conforme já narrado. Depois foi reintroduzido de volta na guerrilha, em seu posto junto à Comissão Militar, na condição de infiltrado. Durante a Terceira Campanha, mantinha encontros periódicos com os militares, chamados de “pontos”, perto do acampamento do rio Gameleira. Deixou a guerrilha em 20 de dezembro de 1973, quando foi visto pela última vez pelos camaradas, registram o “Relatório Arroyo” e o “Diário do Velho Mário”.

Ari Armeiro foi preso logo após o Chafurdo de Natal, enquanto tentava fugir pela Transamazônica[9]. Levado para a Casa Azul, deixaram que retornasse para casa. Pesou na decisão o fato de ser operário, com politização superficial, avaliaram os militares, e por já ser um colaborador infiltrado. Foi deixado em um ponto da rodovia Transamazônica, onde tomou um ônibus. Desde então, encontra-se na relação dos desaparecidos políticos. Manteve sua própria identidade original.

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O fato é que, em algum momento, os comandantes militares chegaram a um meio-termo entre a execução (ou não) de prisioneiros. Decidiu-se poupar mais alguns guerrilheiros, contudo, apenas alguns poucos. Quem? Edinho e Rosinha teriam sido os primeiros a compor a lista. Ao saber qual seria seu destino, Edinho pediu que também poupassem a vida dos camaradas Duda e Piauí. Como estavam colaborando com os militares, entraram por gravidade.

E ainda tinha o caso de Josias, o estudante de Medicina Tobias Pereira Júnior, que estava desde às vésperas do Natal de 1973 detido na Base de Xambioá, louco de vontade de viver. Observando-se o outrora a partir do agora, ouso especular sobre o caso de Simão (Cilon Cunha Brum), que fora executado em 27 de fevereiro. Caso o guerrilheiro tivesse caído umas duas semanas depois, no período em que Edinho, Duda, Piauí e Rosinha foram presos, é provável que tivesse sobrevivido.

Operação Mortos-Vivos

Cyro Etchegoyen foi escalado pelo general Confúncio para pensar e coordenar essa operação. Ele vinha de uma família de militares. Seu irmão, o general Leo Etchegoyen, era então o Assessor Especial de Segurança Nacional do presidente Emílio Médici, ou seja, o homem que levava para o presidente as informações sobre a repressão às lutas armadas urbana e rural, e transmitia as ordens do presidente para os comandantes das três Forças Armadas.

Há muito que Cyro havia montado uma gigantesca operação de infiltração nas organizações da luta armada. Estava sob seu controle central a rede de informantes de todo o Brasil. Eram agentes infiltrados. Mas havia, sobretudo, militantes de esquerda que haviam mudado de lado, ou em troca de dinheiro, ou em troca da vida. Dentro dessa teia, muitos deles tiveram que trocar de identidade, dentro de um programa inspirado no de proteção à testemunha, criado pelo FBI, dos Estados Unidos. Acabaram, todos eles, entrando para as estatísticas dos desaparecidos políticos da ditadura. Enfim, Cyro era o homem com maior experiência dentro das três Forças Armadas para organizar a saída de alguns guerrilheiros do Araguaia.

A operação, classificada de secreta, foi planejada e organizada em Brasília pelo major Ronaldo Lima, do CIE. O comandante Lameira, do Cenimar, o ajudou. No Araguaia, a execução ficou a cargo do major Leônidas Soriano Caldas, Dr. Ribamar, o chefe direto das equipes de operações especiais Jiboia e Zebra[10]. Seu assistente direto era o sargento José Reis, codinome Régis[11]. O sargento Joaquim Artur Lopes de Souza, codinome Ivan, também seria informado da operação.

Poucos sabiam do que viria a acontecer. Esconderam a operação até mesmo de um dos oficiais de maior confiança, o capitão Sebastião de Moura, o Curió. Avaliaram que Curió seria contra. Ele pregava o princípio de que todos os guerrilheiros deveriam ser executados, sem exceções, e empenhava-se pessoalmente na tarefa. Portanto, seria melhor que não soubesse de nada.

Uma das providências necessárias seria convencer os camponeses e os próprios militares de que aqueles guerrilheiros que conviveram com eles como prisioneiros também estariam mortos. Precisavam convencer até mesmo as equipes de operações especiais que os executavam. A missão de Ivan era ajudar nas histórias de cobertura. Ajudar a convencer até mesmo seus próprios homens da equipe Jiboia.

Nos Estados Unidos, é comum que as autoridades do Programa de Proteção às Testemunhas entreguem corpos carbonizados ou dilacerados às famílias daqueles que precisam desaparecer. É feito velório, enterro, sepultura e, assim, os familiares acabam se conformando com a perda. No caso dos mortos-vivos, foram levados três corpos para a Base de Bacaba e apresentados como sendo de Edinho, Duda e Piauí. Dezenas de militares e de guias do Exército foram chamados para vê-los.

O agente Robson (codinome), por exemplo, que integrava uma das equipes encarregadas de interrogar e executar prisioneiros, chegou de helicóptero e avistou três corpos no chão. Estavam cobertos; ele quis ver seus rostos. Um deles tinha um tiro na têmpora, sinal de execução. O outro muito magro, cara de doente. O terceiro bem ruim. Não reconheceu nenhum. Perguntou quem eram eles. Responderam. Guardou os nomes de Edinho e de Duda; do terceiro, esqueceu.

As histórias de “cobertura” de Josias e Rosinha, por sua vez, foram realizadas em duas etapas. Primeiro mandaram que fossem executados pela equipe Jiboia, chefiada por Ivan. Contudo, acabaram sendo entregues à equipe de Régis para execuções simuladas. Os dois subiram em helicópteros distintos, no mesmo dia. Josias foi levado por Régis. Já Rosinha foi entregue ao agente Remo, do Rio de Janeiro, que atuava nos interrogatórios na Casa Azul[12].

No caso de Josias, o helicóptero desceu em uma clareira perto da Transamazônica. Na hora da execução, Régis mandou os dois militares que faziam a segurança aguardarem e entrou na mata com o prisioneiro. Deu três tiros, escutados pelos demais militares. Josias então caminhou até um automóvel que o aguardava na Transamazônica. No caso de Rosinha, sua operação de cobertura teria sido parecida.

Edinho foi o primeiro a seguir para Brasília; tinha então 24 anos. Dias depois, seguiram em outro avião, Duda, 22 anos, e Piauí, trinta. Até que chegou a vez de Rosinha, 29 anos, e Josias, 24, também rumarem juntos para Brasília.

 

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Ainda como ações de contrainformação, foram enviados da Casa Azul informes contraditórios aos três serviços de informações militares em Brasília, CIE, Cisa e Cenimar, de forma a restarem registradas diferentes versões sobre as supostas mortes dos guerrilheiros. Sobre Edinho, a informação é que teria sido morto em 14 de março. Sobre Josias, informaram ao Cisa que teria sido morto em janeiro e, ao Cenimar, a data de sua morte a 15 de fevereiro.

No caso de Rosinha, foi enviado para o CIE e o Cisa e informação de que teria morrido em janeiro, sem apontar a data. Sobre Piauí, enviaram ao Cenimar a informação de que teria morrido a 5 de março, em ação de justiçamento perpetrada justamente por Rosinha, que já estaria morta desde janeiro. E, para o Cisa, informaram que Piauí teria morrido a 24 de janeiro.

No caso de Duda, informaram aos três serviços que foi “morto em combate”, em março de 1974. Em 2002, quando os procuradores do Ministério Público Federal colheram depoimentos de moradores do Araguaia buscando reconstituir as mortes dos guerrilheiros, as versões que encontraram sobre o desaparecimento de Duda foram as mais contraditórias. O ex-guia Manuel Leal Lima, o Vanu, relatou que teria presenciado sua execução, junto com a execução de Piauí e do camponês Pedro Carretel. Dois outros camponeses garantem que assistiram Duda ser morto em um bombardeio no castanhal Brasil-Espanha, onde seus restos mortais estariam enterrados. Outro depoimento registra que teria sido preso na casa de um camponês em São Geraldo, Agenor Moraes da Silva. Segundo esses depoimentos, ele teria sido morto de pelo menos quatro maneiras diferentes, contendo pouca ou nenhuma informação em comum.

Novas identidades

Em Brasília, todos os cinco prisioneiros ficaram sob a responsabilidade do CIE. Nas primeiras semanas, todos os eles, incluindo Hélio Luiz, ficaram resguardados em celas da Polícia Federal, que na ocasião era dirigida pelo general Antônio Bandeira. Estavam sob os cuidados de dois homens da mais estrita confiança de Bandeira, o delegado Deusdeth e o agente Chaves. Deusdeth faleceria um ano depois, em 1976. No caso de Chaves, fez concurso para delegado e prosseguiria na Polícia Federal até a aposentadoria.

Os cinco foram visitados e interrogados por muito poucos oficiais, dentre eles, Cyro Etchegoyen, Cinelli e Lameira. Para efeito de segurança, ganharam apelidos. Hélio Luiz continuou sendo Edinho, por vezes Helinho. Tobias era o Bula – referência irônica ao fato de que era estudante de Medicina que tratava dos moradores do Araguaia estudando bulas de medicamentos. Como tinha 1,96m de altura, por vezes era o Comprido. Antônio de Pádua, o Piauí, estudante de Astronomia antes de aderir à guerrilha, era o Astrólogo. Luiz Renê, o Duda, na ingenuidade de seus 22 anos, passou a ser o Bobalhão. Quanto a Maria Célia, continuou sendo Rosa, ou Rosinha.

Em missão paralela, seria preciso arrumar novas identidades e novas vidas para cada um deles. E empregos, para que pudessem recomeçar. As identidades, foram solicitadas ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops, e fornecidas pela Secretaria de Segurança de São Paulo. Quanto aos empregos, Hélio Luiz foi trabalhar no Carrefour em São Paulo. A multinacional francesa acabara de chegar ao Brasil. A família de seu pai tinha um terreno na Avenida Brasil, Rio de Janeiro, que havia sido alugado para o Carrefour abrir um supermercado, de acordo com dona Carmen Navarro. Teria sido o almirante Gualter a acertar os detalhes com a direção do Carrefour.

Tobias Pereira Júnior recomeçou a vida no Mato Grosso, provavelmente em Cuiabá, onde tinha familiares. Luiz Renê, Antônio de Pádua e Rosinha recomeçaram juntos, em Brasília. Coube ao general Bandeira, em conversa pessoal, pedir ao então ministro da Educação, Jarbas Passarinho, que lhes arrumasse um emprego no MEC. Contou a Passarinho as linhas gerais da Operação Mortos-Vivos: que eram jovens estudantes levados pelo PC do B para o Araguaia; que os militares haviam decidido dar uma nova chance a cinco deles; e que precisava lhes arrumar emprego. Naquele primeiro contato, pediu emprego para dois. Obviamente, Bandeira não revelou nem a verdadeira identidade dos jovens, nem o novo nome.

Passarinho, às vésperas de deixar o ministério, então convocou um assessor de máxima confiança, Marcos Tatit, chefe da Divisão de Segurança e Informações. Coube a Tatit encontrar as colocações. Foi quando Maria Célia também entrou no pacote. Os três ex-guerrilheiros, já na condição de mortos-vivos, ficaram entre seis meses a um ano no ministério. O objetivo era “lavar” a nova identidade. Depois saíram para novos empregos em outros estados.

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Em junho de 1974, os militares decidiram poupar mais uma guerrilheira: Tuca, codinome de Luiza Augusta Garlippe. Nascida em Araraquara, noroeste paulista, Augusta cursou Enfermagem na USP, formando-se em 1964. Em seguida, passou a trabalhar no Hospital das Clínicas, chegando ao posto de enfermeira-chefe do Departamento de Doenças Tropicais, assunto em que se especializou. Realizou viagens de estudo pelo interior do país, percorrendo estados como Amapá e Acre. Também participou da Associação dos Funcionários do Hospital das Clínicas. Enfim, era uma voluntarista. Acabou recrutada para o PC do B, juntamente com seu irmão, Saulo Garlippe.

Em 1970, seria deslocada para o Araguaia. Já com a identidade de Tuca, apelido de Augusta, foi viver na região do Rio Gameleira, área do Destacamento B. Como enfermeira profissional, acabou integrando as Brigadas de Saúde. Trabalhou como parteira. Com a morte de Dr. Juca, o único médico de fato da guerrilha, a partir de outubro de 1972, assumiu a coordenação das Brigadas de Saúde. Era companheira do guerrilheiro Pedro Alexandrino de Oliveira, o Peri.

Fora presa no início de junho, em companhia de Dina, tentando fugir do Araguaia. As duas estavam com roupas destroçadas, magras, famintas, desnutridas, há quase um ano sem comer sal ou açúcar. Os corpos tomados por pústulas de leishmaniose. O fato é que os oficiais da Casa Azul avaliaram que Tuca, tal qual Rosinha, não representava qualquer perigo para o Estado constituído. Tuca entraria em um avião rumo a Brasília no mesmo dia em que Dina entrou em um helicóptero para ser executada.

Vidas secretas

Hélio Luiz tem estado há quatro décadas sob a proteção da Marinha. De início, seu contato direto era um oficial da ativa, provavelmente Lameira. Depois sua ligação passou a ser com um oficial da Marinha que trabalhava na Contrainteligência do SNI, órgão que ficou oficialmente responsável pela proteção de sua vida. Com o passar dos anos, esse oficial passou para a reserva, contudo, continuou mantendo contato. No caso dos cinco guerrilheiros que ficaram sob proteção do CIE, coube a Cyro Etchegoyen cuidar deles nos primeiros anos. Quando Cyro mudou-se para o Rio de Janeiro, a missão foi entregue ao coronel Victor Motta Castro Gomes.

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Trata-se de um dos mais ativos (e desconhecidos) oficiais de inteligência do Exército, especializado em análises sobre o PCB e a AP. Em 1973, após o golpe militar no Chile, Victor esteve na missão que identificou os brasileiros que estavam presos no Estádio Nacional de Santiago. O chefe da missão era o coronel Sebastião José Ramos de Castro, então chefe da Agência Central do SNI em Brasília. Havia oficiais dos três serviços de informações militares.

Eles foram olhando as fotografias dos brasileiros, uma a uma, e separando os militantes de esquerda daqueles que estavam na luta armada. Os casais foram quase todos apontados como meros militantes. Assim, Castro e Victor, dentre outros, acabaram por selecionar 120 e 150 brasileiros, liberados para o exílio em outros países. Mais tarde, em 1975, Victor estaria na Operação Acarajé, que apanhou o PCB na Bahia ao lado do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, então chefe da seção de Operações do CIE. A identidade do coronel Victor foi revelada por Marcelo Godoy, em A casa da vovó.

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Carmen Navarro jamais acreditou na morte do filho. Com o ex-marido, há muito falecido, jamais conseguiu informações. Muito menos com o cunhado, o almirante Gualter. Este passou três décadas tentando convencê-la, com ênfase inexplicável, de que o sobrinho estaria morto e enterrado nas matas da Amazônia. Em 1980, a dirigente Elza Monerat avistou-o em uma esquina no Rio de Janeiro. Eles se conheciam bem, afinal, durante os preparativos da guerrilha, estavam juntos no Destacamento A. Ele desviou o olhar e apertou o passo. Elza tentou segui-lo, contudo, logo o perderia de vista.

Hélio casou-se logo depois da guerrilha; teria tido dois filhos. Como fez José Dirceu, não teria revelado para a esposa sua verdadeira identidade. Dirceu se abriu com a mulher depois da Anistia. Ela exigiu desquite. Hélio estaria até hoje casado.

Com o falecimento de seu pai, em 1999, Hélio Luiz se apresentou à Receita Federal, em 8 de agosto de 2001, com sua verdadeira identidade, a fim de regularizar o CPF e liberar inventário. Ato contínuo, forneceu à Justiça documento no qual abria mão dos direitos sobre o imóvel no qual seu pai residia com a segunda mulher, Elza da Costa Magalhães, localizado em Copacabana. Depois, desapareceu novamente. Em 2010, de acordo com informações de militares a esta pesquisa, continuava trabalhando na administração do Carrefour. Nunca teria procurado a mãe e a única irmã, Aglaé Cristina.

No caso de Tobias, sua família não pediu indenização e se recusa a receber militantes de esquerda, historiadores ou jornalistas. Recusa-se, sobretudo, a dialogar com os grupos de Direitos Humanos. Ademais, sua ficha desapareceu dos arquivos da 2ª Seção (Informações) da 8ª Região Militar, em Belém, junto com a ficha de Ari Armeiro[13]. Ainda não apareceram fotografias suas dos tempos da guerrilha.

Na década de 1990, o historiador Rubim Aquino[14], então casado com a ex-guerrilheira Reginela Carvalho, tentou descobrir os mistérios que envolvem o desaparecimento de Tobias. Já sabia sobre Hélio Luiz e desconfiava de Tobias. Certa vez avistou um homem magro e alto, com quase 2 metros de altura, entrando no edifício onde Tobias morou antes de ir para o Araguaia. Rubim e Regilena conseguiram chegar à casa onde moravam os pais de Tobias. Não deixaram que entrassem; recusaram-se a fornecer uma fotografia; não quiseram conversar sobre o caso.

Quanto a Luiz Renê, se vivo ainda estiver, também jamais procurou a família. Sua irmã, Elizabeth Silveira, é fundadora e militante do Grupo Tortura Nunca Mais. Toda vez que alguém toca no tema dos “mortos-vivos”, fica tomada de ira e ameaça processar quem quer que seja. Ela já discursou no julgamento do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos, em nome das famílias dos desaparecidos, argumentando que a possibilidade do irmão ter sido poupado pelos militares é uma acusação pusilânime, uma calúnia leviana e criminosa à sua honra e à sua memória.

Desde 2010, Elizabeth luta para impedir o cumprimento da ordem judicial da Polícia Federal de investigar os mortos-vivos, cuja direção, por sua vez, tem optado pela desídia para evitar entrar em um tema polêmico. O principal argumento de Elizabeth é o de que essa vicinal, a busca pelos sobreviventes, pode desviar a atenção do caminho principal – que seria a busca das ossadas daqueles que morreram. Conseguiu fechar aliança com alguns familiares de desaparecidos para sua cruzada, com especial empenho de Criméia Alice de Almeida e Vitória Grabois.

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Carmen Navarro, por sua vez, enfrentou por anos um impasse. Queria saber do filho, desde que a Polícia Federal mantivesse discrição. Mas se fosse para os policiais fazerem mais uma de suas operações espalhafatosas, destruir a atual vida secreta de Hélio Luiz, então seria melhor que se deixasse tudo como está.

Em 2010, Carmen enviou uma carta ao filho por meio da Marinha. Dizia a Hélio Luiz que estava com problemas cardíacos e que gostaria de vê-lo ao menos uma vez. Que não lhe cobraria nada, não lhe perguntaria coisa alguma sobre seu passado ou presente, que compreenderia suas razões para todas as atitudes, que ele nada precisava justificar nem ela perdoar – mas que apenas a deixasse vê-lo uma vez.

Essa carta foi encaminhada a um capitão de mar e guerra (coronel) da reserva, o mesmo que quase três décadas antes fora designado pelo SNI para ser o elo com Hélio Luiz. A carta foi então entregue pelo militar ao ex-guerrilheiro. Os dois mantinham um elevado grau de intimidade. Hélio Luiz chorou muito ao ler a carta da mãe. Teria enfrentado uma dúvida profunda sobre o que fazer. Ao final, decidiu que o melhor seria não retornar à vida passada.

Dona Carmen soube disso. Ainda mais resignada, desde então passou a acalentar a esperança de escutar uma música. Aquela que Hélio certa feita tocou para a mãe antes de desaparecer rumo ao Araguaia. Seria sua sonata. Uma sonata para Carmen.

 

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[1]     Esclareço que tomei o título emprestado de um artigo sobre o tema que publiquei no jornal Folha de S. Paulo, página de Opinião. Também tomei por base a estrutura do artigo para construir este capítulo. Hugo Studart. “Sonata para Carmen: Carmen acalenta a esperança de ouvir a canção que Hélio lhe compôs antes de desaparecer, quando partiu para a guerrilha do Araguaia; será a sua sonata”. São Paulo: Folha de S. Paulo, 23 dez. 2011, p.3.

[2]     De acordo com a CNV, seriam 243 os desaparecidos. Os militares, contudo, por meio do “Projeto Orvil”, apontam que seriam 133.

[3]     Na ordem, a juíza citou cinco nomes a serem procurados: Hélio Luiz de Magalhães (Edinho), Luiz Renê Silveira e Silva (Duda), Antônio de Pádua Costa (Piauí), Áurea Eliza Valadão (Áurea) e Dinalva Oliveira Teixeira (Dina). Ressalve-se, contudo, que somente três desses nomes de fato estão entre os mortos-vivos, conforme se constatará ao longo da narrativa.

[4]     Augusto Rademaker Grünewald foi um dos integrantes da Junta Militar que assumiu o poder com o derrame do presidente Costa e Silva. Na sequência, seria escolhido como vice-presidente de Emílio Médici. Em 1973, quando teve início a Terceira Campanha, Rademaker era o nome mais forte da linha-dura dentro da Marinha. Outro anticomunista proeminente era o almirante Carlos Penna Botto. Quando Ernesto Geisel assume a Presidência, em março de 1973, Rademaker e Botto vão para a reserva e, assim, Gualter de Magalhães ascende como o nome mais relevante da linha-dura.

[5]     A participação de Leo Cinelli no Araguaia foi revelada por: 1) Maklouf Carvalho. O coronel rompe o silêncio, pp. 137-138 e 178-184; 2) Major Curió o aponta como principal oficial de inteligência no Araguaia, sendo citado dez vezes na sua biografia escrita por Nossa. Mata!, pp. 22, 120 e outras.

[6]     Membro do CIE, o major Caldas esteve no Araguaia desde o início da repressão aos guerrilheiros. Em março de 1972, por exemplo, foi a Fortaleza buscar o guerrilheiro Pedro Albuquerque, que havia sido preso, a fim de levá-lo ao Araguaia. Foi o responsável pela execução de campo da Operação Sucuri. Na Marajoara, as equipes de operações especiais de inteligência Jiboia e Zebra estavam sob sua chefia direta. Tinham, entre outras missões, interrogar e executar prisioneiros. Chegou a coronel e foi para a reserva no anos 1990. Até a presente data, não há documentos conhecidos que cite sua participação no episódio, mas somente depoimentos orais de militares a esta pesquisa.

[7]     Na presente data, rebatizada como Boa Vista. A marcenaria, por sua vez, não existe mais; transformou-se em um bar, ponto de apoio aos barcos e balsas que aportam na área.

[8]     Peixinho entregou essas imagens a Paulo Fontelles, militante do PC do B em Belém, que por sua vez as encaminhou, em 1996, à Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça.

[9]     As fichas do general Antônio Bandeira, entregues ao jornal O Globo em 1996, informam que ele foi preso na Transamazônica, em 26 de dezembro de 1973, “após haver desertado”.

[10]   Membro do CIE, o major Caldas participou das operações de repressão no Araguaia desde o início. Em março de 1972, por exemplo, seria escalado para buscar o guerrilheiro Pedro Albuquerque em Fortaleza e levá-lo para Xambioá. Já havia sido o coordenador de campo da Operação Sucuri. Na Marajoara, as equipes de operações especiais de inteligência Jiboia e Zebra estavam sob sua chefia direta. Chegou a coronel e foi para a reserva no anos 1990. Até a presente data, não há documentos conhecidos que cite sua participação no episódio, mas somente depoimentos orais de militares a esta pesquisa,

[11]   Cumpre esclarecer as razões pelas quais cito o sargento José Reis. Ao longo de toda a narrativa, venho utilizando o critério de abrir os nomes verdadeiros dos oficiais superiores, ou seja, os comandantes, e no caso dos subalternos que deviam obediência, citar somente seus codinomes. Com exceção daqueles subalternos já desvelados em reportagens ou em livros. No caso de Reis, promovido a tenente antes de ir para a reserva, foi chamado a depor tanto na 1ª Vara Federal, onde se encontra o processo sobre os desaparecidos do Araguaia, quanto na CNV.

[12]   Na época do Araguaia, era formado em Matemática. Mais tarde deixaria a farda para seguir a carreira de professor. É doutor em Matemática. Por ser subordinado durante os acontecimentos, seu nome será preservado.

[13]   O tenente José Vargas Jimenez, codinome Chico Dolar, apresenta no livro Bacaba II uma relação dos guerrilheiros mortos no período em que esteve na repressão à guerrilha, como sargento, entre outubro de 1973 e fevereiro de 1974. Após a guerrilha, Vargas serviu na área de informações da 8ª Região Militar, em Belém, quando então teve acesso e tirou cópias de centenas de documentos. Sobre os guerrilheiros Josias e Ari Armeiro, Vargas registra no livro: “Arquivo não encontrado.” Ressalte-se, contudo, que ele encontrou os arquivos de outros mortos-vivos, como Rosa e Duda. Esse lapso pode ser apenas isso, um lapso, uma falha. Como também pode ser um indício.

[14]   Filho de um oficial do Exército, Rubim Leão de Aquino foi militante da organização Resistência Armada Nacionalista. Chegou a entrar na luta armada; foi preso em 1973. Já no final da década de 1970, Aquino fez parte do Comitê Brasileiro da Anistia e foi vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais. É autor de quinze livros didáticos de História, dentre eles, Sociedade brasileira: uma história através dos movimentos sociais.