Reza a lenda, cantada em verso e prosa lá pelas bordas das selvas amazônicas, que Dina virava borboleta e Osvaldão lobisomem.

Dinalva Conceição Teixeira, geóloga por profissão, guerrilheira por opção, era uma das militantes comunistas que trocou a vida nas cidades pelas intempéries da selva, de onde pretendia iniciar uma guerra revolucionária para implantar um novo sistema político no Brasil. Instalou-se no coração da Amazônia, em um ponto remoto ao sul do estado do Pará, às margens de um grande rio, o Araguaia. Dina primeiro abriu uma farmácia. Também curava enfermos. Trabalhou como parteira e acumulou dezenas de “filhos de pegação”. Fundou uma escola. Virou professora. Contava histórias de sofrimento e falava de mudar o mundo por meio da revolução. Dina, sobretudo, acenava com o Paraíso.

Logo se tornaria uma das personalidades mais populares da região. Por conta de sua imensa determinação, muitas vezes testada a balas, era respeitada pelos companheiros. Os camponeses a amavam. Os militares a temiam. Era conhecida por sua enorme capacidade de esconder-se entre as folhagens e de pular de árvore em árvore. Certa feita, quando diante das metralhadoras do Exército, protegeu-se atrás de um enorme pé de angico. A árvore tombou serrada pelas balas. Dina, contudo, teria se transformado em borboleta e desaparecido na mata, para estupor dos inimigos.

Osvaldo Orlando Costa era um gigante de ébano, tez quase azul, da cor de jabuticaba madura. Com 1,98m de altura, sorriso expansivo, conversa farta e carisma contagiante, era sem dúvida o mais amado e temido entre os guerrilheiros do Araguaia. Osvaldão, assim sempre chamado, chegou à floresta no grupo precursor. Abriu garimpos de cristais. Recrutou camponeses. Batizou crianças, muitas, e amou um número ainda maior de mulheres. Comunista convicto, mas não ortodoxo, adorava um “terecô”, sincretismo da umbanda com o animismo dos pajés da Amazônia.

De acordo com o imaginário popular, certa feita o compadre Chico Piauí, grande terecozeiro, iniciado nas artes da feitiçaria pelo Demônio em pessoa, teceu reza-braba para fechar o corpo de Osvaldão. Foi nessa mesma época que apareceu um lobisomem na região. Seus uivos dominavam toda a imensa selva que ia da Serra dos Martírios às bordas de Esperancinha. O povo logo descobriu que Osvaldão passara a se transformar em lobisomem. Agora, nada mais poderia atingí-lo. Doravante, nada deste ou doutro mundo poderia vencê-lo.

Osvaldão só seria abatido quando atingido por duas balas de prata, enfeitiçadas pelo mesmo terecozeiro, Chico Piauí, e disparadas por seu filho Arlindo, que trocara de lado, abandonara os guerrilheiros para se tornar guia do Exército. Na primeira bala que lhe atingiu o peito, Osvaldão abriu os braços e urrou. Seu grito fora escutado a quilômetros de distância, segundo o imaginário dos camponeses. Na segunda, saltou a mais de dois metros de altura. Assim que caiu no chão, o demônio que o habitava pulou para o corpo do Arlindo Piauí. O mateiro babava e se contorcia. Teria logo depois morrido de epilepsia.

Quando se pesquisa no chão da história, descobre-se a pertinência do sentido geral desses acontecimentos. Segundo a viúva do mateiro Arlindo, dona Antônia Piauí, Osvaldo de fato teve o “corpo fechado” em um ritual de terecô, mas por sua sogra, ela terecozeira, não por seu sogro Chico, conforme reza a lenda. Osvaldo morreu em fevereiro de 1974. Tanto militares quanto os moradores da região convergem na informação de que ele foi apanhado por uma patrulha do Exército, enquanto caminhava na mata, e que o tiro foi de fato desfechado pelo guia da patrulha, Arlindo Piauí. Quanto à lenda de que o demônio que habitava Osvaldão teria passado para Arlindo, a viúva do mateiro explica que ele sofria de epilepsia; então, teve um ataque logo após a morte do guerrilheiro.

O corpo de Osvaldo foi amarrado ao estribo de um helicóptero militar, exibido em vôo aos moradores da região e, por fim, levado para a Base Militar de Xambioá, cidade às margens do rio Araguaia, considerada a “capital” da guerrilha. Sua morte significou para os moradores da região o fim definitivo daquela investida, que entrou para nossa história com o nome de Guerrilha do Araguaia.

Dina, por sua vez, morreu cerca de quatro meses depois, de forma épica, quando já não havia quase nenhum guerrilheiro vivo. Aprisionada por uma patrulha do Exército, em junho de 1974, ao perceber que seria executada, pediu para morrer de frente, encarando o algoz nos olhos. Seu último desejo foi atendido.

* * *

Imagem: Sharon Molinaro

Os mitos de Dina e de Osvaldão sobreviveriam às areias do tempo. A borboleta, acreditam muitos moradores da região, ainda estaria viva, sob nova identidade, a levar sua mensagem de esperança em um mundo melhor em alguma terra distante, provavelmente no Rio de Janeiro.

O lobisomem Osvaldão, por sua vez, também permanece vivo, só que em espírito, a aparecer com toda força e esplendor, em noites de lua-cheia, nos terreiros de terecô. Incorpora quando se invocam os exus, uiva e estrebucha, mas logo se acalma caso alguma pomba-gira venha a lhe insinuar que os dois podem vir a ter um momento de tricô. Osvaldão dá conselhos. Prefere os jovens rebeldes. Fala alto, gargalha, canta, roda e pula. Se contrariado, transforma-se em besta-fera, urra, vocifera. Só baixa a cabeça diante da Cabocla Jurema. Vai embora quando silencia a cantoria. Antes, lança olhar melancólico em direção à lua. Então uiva, em som muito alto, longo e distante, a anunciar que em breve retornará ao Araguaia, em nova campanha pela revolução.

 

Por: Hugo Studart/ Borboletas e Lobisomens.