Crimeia com o filho no Hospital das Forças Armadas e o sargento Joaquim Artur, codinome Ivan

Por: A República
O livro Borboletas e Lobisomens, do jornalista e historiador Hugo Studart, revela que a ex-guerrilheira do Araguaia Criméia Almeida manteve por pelo menos três anos um romance secreto com um sargento do Exército que chefiava uma equipes de interrogatório e de execução de prisioneiros políticos.

A obra, recém lançada pela editora Francisco Alves, detalha ainda que Criméia, hoje dirigente do Grupo Tortura Nunca Mais, foi presa em São Paulo e libertada depois de prestar depoimento. Meses depois, ela voltaria ao Araguaia, viajando sozinha, a fim demostrar ao Exército esconderijos, depósitos de mantimentos e as posses de camponeses que apoiavam a guerrilha. Dias depois dessa missão de reconhecimento, os militares mataram cinco guerrilheiros justamente nos locais apontados por ela. Dentre eles, André Grabois, pai do filho de Criméia.

Em vídeo divulgado pelo site Opera Mundi, a ex-guerrilheira nega que tenha mantido um romance com o sargento Joaquim Artur Lopes, que usava o codinome Ivan nas operações de repressão política durante a ditadura. Studart, contudo, sustenta a história relatada no livro com base em seis testemunhas, a começar pelos três militares que acompanharam o casal por sete dias em missões de reconhecimento no Araguaia.

Este é uma das passagens polêmicas da obra, publicada no meio de um longo capítulo no qual o autor disseca quem seriam, afinal, os delatores e traidores da Guerrilha do Araguaia, tema que vem sendo discutido há quase 40 anos pela direção do Partido Comunista do Brasil. Nesse mesmo capítulo, Studart apresenta documentos secretos e depoimentos orais de militares que levam à conclusão de que o ex-guerrilheiro José Genoíno, jamais delatou a guerrilha, conforme acusações do deputado Jair Bolsonaro.

De acordo com o historiador, as informações que Criméia Almeida prestou ao sargento que a interrogou e com quem manteve um romance teria provocado a morte dos guerrilheiros André Grabois (codinome Zé Carlos), pai de seu filho, de João Gualberto Calatrone (Zebão), Divino Ferreira de Souza (Nunes), Lúcia Maria de Souza (Sônia), além de um camponês que apoiava a guerrilha, Antonio Alfredo Campos.

A República já publicou aqui com exclusividade o trecho do livro Borboletas e Lobisomens que detalha a prisão e os depoimentos de José Genoíno. Agora, publica também com exclusividade o trecho sobre o romance de Criméia Almeida com o sargento torturador:

“Entre as mulheres, somente uma faria “missão de reconhecimento”: Criméia Alice de Almeida. Ela havia deixado o Araguaia em agosto de 1972, com autorização de seus comandantes, pois estava grávida do guerrilheiro Zé Carlos, conforme já narrado. Seria presa em fins de dezembro de 1972, em São Paulo, na casa de sua irmã Maria Amélia de Almeida Telles, militante do PC do B – episódio dentro do contexto de uma série de outras prisões no partido, incluindo o cerco e morte do secretário político Carlos Danielli, então principal responsável pelos contatos com a Guerrilha do Araguaia.

Ela foi interrogada, primeiro, em São Paulo. Depois, Criméia seria levada à prisão do PIC em Brasília, onde estavam concentradas as investigações sobre o Araguaia. No processo de indenização que moveu junto à Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Criméia informa ter sido torturada tanto em São Paulo quanto no PIC, enquanto ainda grávida. Ela teve o filho no Hospital das Forças Armadas de Brasília. A criança recebeu o nome de João Carlos, homenagem a João Carlos Haas Sobrinho, o Dr. Juca, segundo ela mesma explica.

De acordo com narrativas de militares, a esposa do general Antônio Bandeira, dona Léa, a teria visitado algumas vezes na enfermaria. Estaria comovida com o fato de haver uma prisioneira grávida, preocupada com seu estado de saúde. Teria mandado militares subordinados a seu marido comprar um pequeno enxoval para a criança.

O militar Mike (codinome), em narrativa oral, conta que foi ele quem comprou o enxoval, em uma loja chamada Fofi, que ficava na avenida W-3 sul, quadra 508. Como cumpria a missão a contragosto, por ordem da mulher do general, ao encontrar um macacão listrado de preto e branco, na horizontal, tal qual uniforme de presidiário norte-americano, não resistiu à ironia e o incluiu entre as peças. Por fim, dona Lea Bandeira promoveu o batizado, realizado por um capelão do Exército na capela do Hospital das Forças Armadas. Há uma foto do capelão batizando o bebê.

Logo após o batizado, os pais de Criméia levaram a criança para Belo Horizonte. Fizeram o trajeto de avião. Semanas depois, seria a vez de Criméia ser deixada na casa dos pais, em Belo Horizonte – como um ano antes havia ocorrido com as demais guerrilheiras aprisionadas. Para levá-la, o general Bandeira escalou um de seus agentes de confiança, o sargento Joaquim Artur Lopes de Souza, codinome Ivan. Um outro agente seguiu junto como segurança. Viajaram em um Fusca com pneus tala larga e volante pequeno, conforme a moda da época.

Ao chegarem a Belo Horizonte, Ivan despachou o outro militar de volta a Brasília e permaneceu uma semana na cidade, sem qualquer comunicação com os chefes em Brasília. A história tornou-se pública porque o general Bandeira teria ficado furioso com a ausência do subordinado. Ao retornar, o sargento explicou ao general que estava em trabalho de recrutamento de nova informante. E contou detalhes. Bandeira aceitou as explicações. Nos meses subsequentes Ivan ainda visitaria Criméia em Belo Horizonte.

Em setembro de 1973, Criméia retornaria à região do Araguaia para sua própria “missão de reconhecimento”. Isso ocorreu três semanas antes de o Exército dar início à derradeira campanha, em outubro de 1973. Viajou de avião, sozinha, de Belo Horizonte a Marabá. A passagem lhe foi enviada por Ivan, comprada com verba secreta do CIE. Recebeu-a em Marabá um sargento de informações, codinome Robson. No dia seguinte, o militar levou a guerrilheira de carro até Xambioá. Encontraram-se com Ivan.

Criméia revela esse retorno ao Araguaia em depoimento ao pesquisador Osvaldo Bertolino, no livro Testamento de luta: a vida de Carlos Danielli. A obra registra apenas que ela retornou à região, em meados de 1973, para fazer contatos com a guerrilha e pegar documentos – de acordo com a própria narrativa de Criméia a Bertolino – sem entrar em detalhes, contudo. Também omite o fato de ter viajado em missão do CIE.

Em Xambioá, Ivan e Criméia dormiram na pensão de dona Cecília. Dormiram no mesmo quarto. A pensão existe até a presente data, com outro proprietário. Dona Cecília reside na casa ao lado. Cheguei a dormir na pensão em uma das viagens a Xambioá; aproveitei para acessar as memórias de dona Cecília sobre os tempos da guerrilha, principalmente sobre os militares que ela hospedou. Ela guarda muitas lembranças, por exemplo, de Ivan, Robson e Mike, dentre muitos outros.

O casal foi visto em Xambioá por várias testemunhas. Dentre elas, o sargento Oswaldo Almeida (codinome Valdo). “Eu me lembro perfeitamente da Criméia, fui apresentado a ela em Xambioá. Era baixinha, usava óculos e vestia jeans. Estava na pensão da dona Cecília. Chegou lá com o Ivan, que era o homem de confiança do general Bandeira”, relata Osvaldo Almeida, em narrativa oral à pesquisa.

No dia seguinte, saem em uma caminhote Rural, da Willys, emprestada pelo Incra, para uma longa “missão de reconhecimento” na área onde atuava o Destacamento A. Foram dois dias de caminhonete pelas estradas da região. Mais quatro dias em caminhada pelas trilhas da mata. Nessa missão, três outros agentes de informações, codinomes Robson, Mike e André, acompanharam Ivan e Criméia.

De acordo com as narrativas de três militares a esta pesquisa, Criméia teria levado o grupo à casa dos camponeses Vanu (Manuel Leal Lima) e Peixinho (Raimundo Nonato dos Santos), entre outros locais frequentados pelos guerrilheiros do Destacamento A. Dias depois, quando os militares retornaram ao Araguaia para a Terceira Campanha, foram direto às terras de Vanu. Lá, uma equipe chefiada pelo major Lício Augusto Maciel encontrou e matou quatro guerrilheiros, entre eles, Zé Carlos, justamente o pai do filho de Criméia. Pode ter sido mera coincidência. Mais alguns dias, a mesma equipe de Lício foi à casa de Peixinho. Lá encontrou e matou a guerrilheira Sônia.

Ao longo dessa semana em “missão de reconhecimento”, Ivan e Criméia dormiram juntos todos os dias. Ou na pensão de dona Cecília, ou em rede estendida em pernoite na casa de algum camponês. O inusitado é que essa relação entre o sargento e a guerrilheira estendeu-se por muito tempo. Teria durado quase três anos, de acordo com quatro dos cinco militares consultados pela pesquisa sobre o romance. Ou por mais de dez anos, segundo um dos melhores amigos de Ivan.

Era uma relação proibida nos dois sentidos. Para o partido, seria considerada uma traição grave à revolução qualquer tipo de envolvimento pessoal de um militante com um agente da repressão. Para o Exército, era até compreensível que um agente da comunidade de inteligência fizesse uso de meios heterodoxos para obter alguma informação relevante sobre os “terroristas”. Mas era absolutamente inadmissível o envolvimento amoroso de um dos seus com alguma “subversiva”. Seria considerado falta disciplinar grave, quase uma traição ao Exército, a depender das circunstâncias.

Contudo, é justamente isso que teria acontecido. Ivan teria se envolvido com Criméia de forma sincera, de acordo com seus pares mais íntimos. Ele era casado, com filhos – o que tornava a relação ainda mais proibida. A história vazou e, muito cedo, passou a ser conhecida pela maior parte dos chefes e agentes do CIE. Quando cobrado, Ivan tentava desdenhar a guerrilheira, dizer que era apenas uma informante e que estaria cumprindo seu dever, ainda que de forma não usual.

O fato é que Ivan era um agente singular; por isso seus chefes acabaram optando pela complacência em relação ao seu envolvimento com a guerrilheira. Campeão de hipismo, fora primeiro de turma da Escola dos Sargentos. Gostava de ler, sobretudo livros marxistas. Dizia que era para “conhecer melhor o inimigo”. Com 1,85 m de altura, estatura rara na época, cabelos longos e cacheados, era um tipo muito parecido com o cantor Sidney Magal, então no ápice da carreira.

Exercia forte liderança sobre seus pares. Não apenas os sargentos e praças mais novos, mas também influenciava as decisões dos oficiais superiores. O general Bandeira o adorava; dava-lhe as missões mais difíceis e chegou a trocar confidências com Ivan sobre assuntos da repressão, mandando a hierarquia às favas.

No Araguaia, Ivan conquistaria uma autonomia operacional rara, até mesmo para oficiais superiores. A partir de 1974, seria alçado a coordenador da equipe de inteligência cuja missão era interrogar e executar os prisioneiros dos Destacamentos B e C. A outra equipe, encarregada do Destacamento A, era comandada pelo capitão Sebastião de Moura, o Curió.

Ao lado de Curió, Ivan acabaria se tornando um dos mitos militares resguardados nas lembranças dos camponeses, a quem é atribuído inúmeras ações relevantes – mesmo que não estivesse no local. Ou seja, no imaginário dos camponeses, Ivan e Curió ocupariam, nas fileiras dos militares, um papel de destaque similar aos de Dina e Osvaldão, na trincheira dos guerrilheiros.
Joaquim Artur, ex-Ivan, faleceu no início da década de 1990, quando já na reserva. Ele estaria levantando áreas de tráfico de drogas, nos subúrbios do Rio de Janeiro, que estavam sob influência do Comando Vermelho. Quando os chefes do CV souberam que fora agente de informações do Exército, mandaram executá-lo a machadadas na cabeça, em plena Praia de Ramos. Seus companheiros de farda, contudo, suspeitam que possa ter sido “queima de arquivo” das operações no Araguaia promovida pelo CIE. Deixou viúva e filha que, curiosamente, mantinha em seu quarto um poster de Che Guevara.

Ainda estaria mantendo encontros com Criméia, de acordo com um de seus amigos mais íntimos. A ex-guerrilheira, por sua vez, chegou a revelar a algumas pessoas próximas a sua relação com um militar. Contou, por exemplo, a Vitória Grabois, filha de Maurício e irmã de André, o pai de seu filho. Contudo, não revelou o nome do amante.

Em 2001, Vitória Grabois revelou essa relação à Diva Santana, irmã da guerrilheira desaparecida Dinaelza Santana e sua camarada de partido, como também à jornalista Myrian Luiz Alves. Estavam as três no bar Beirute, em Brasília, quando Vitória relatou que há muito sabia da “amizade” de Criméia com um militar. A ex-guerrilheira nunca disse a Vitória quem seria o militar, mas ela sabia que a cunhada havia mantido uma longa relação de “amizade” com alguém do Exército. Ou seja, essa relação entre Criméia e Ivan é, há décadas, um daqueles “segredos de Polichinelo”, sobre o qual muitos sabem, contudo, hipocritamente, fingem não saber.

Nota do Autor – Criméia fez a revisão do meu livro A lei da selva, no qual relato as estratégias dos militares para exterminar com a guerrilha. Contudo, não quis prestar narrativa oral à pesquisa de Doutorado, que embasou o livro Borboletas e Lobisomens. Nem a mim, nem a qualquer outro pesquisador ou jornalista que porventura a procurou nos últimos anos para tratar do Araguaia, como é o caso do jornalista Carlos Amorim, autor de Araguaia: histórias de amor e de guerra. Procurei-a novamente para abordar especificamente sua relação amorosa com o sargento Joaquim Artur Lopes de Souza. Foi em vão.

Quem seria o traidor?
Pedro, Tereza, Regina ou Paulo, os quatro suspeitos do partido, qual deles seria o “Judas” da revolução? Mutatis mutandis, como interpretar as tais “missões de reconhecimento” perpetradas por Pedro, Genuíno, Dower, Dagoberto, Danilo, Glênio e, por fim, Criméia – a única mulher a ser levada de volta ao Araguaia pelos militares? O fato concreto é que foi por meio das informações colhidas nessas missões que o Exército fechou o cerco aos guerrilheiros.

Se somarmos aos depoimentos das mulheres que foram presas – Tereza, Rioco, Luzia e Regilena – e de Eduardo Monteiro, o único homem a não fazer missão de reconhecimento, pois foi preso antes mesmo de conseguir entrar para os destacamentos, temos, então, quatorze guerrilheiros, teoricamente, sob suspeição. Por essa razão, seriam todos “traidores”, “delatores”, conforme os adjetivos utilizados pelo comandante Mário em suas cartas à direção do partido?

Ora, todos os guerrilheiros do Araguaia presos, absolutamente todos, prestaram algum tipo de informação aos militares. Isso ocorreu com esses prisioneiros acima citados. Sobreviveram todos os aprisionados naquele período no qual as Forças Armadas ainda combatiam segundo as Leis da Guerra e as Convenções de Genebra.
Revelações em depoimentos também ocorreriam no período em que o Exército começou a cometer atos de exceção. Entre 25 e trinta guerrilheiros teriam sido presos e executados. Entre um fato e outro, todos eles prestaram depoimentos aos militares. Incluindo Dina. E não necessariamente sob tortura. O inexorável é que não havia opção: ou se falava aos poucos, ganhando tempo, ou as informações seriam extraídas de outro jeito.

Antes de entrarem para a luta armada, tanto a urbana quanto a rural, os guerrilheiros costumavam ser instruídos por suas respectivas organizações sobre técnicas de resistência em interrogatório. Havia basicamente dois tipos de técnicas.

Na primeira, chamada “turca”, os guerrilheiros entravam em confronto aberto com os inquisitores. Nada diziam, sequer o nome, ou xingavam, cuspiam na cara. Raros eram os militantes políticos preparados para essa técnica. Eduardo Collen Leite, por exemplo, o Bacuri, da Polop, teria tentado enfrentar o delegado Sérgio Paranhos Fleury, em 1970, com a técnica turca. Um de seus olhos teria sido arrancado pelas mãos de Fleury.

A outra técnica é chamada de “francesa”. Nela, o prisioneiro finge colaborar. Fala à exaustão, conta toda a vida, desde a infância. Detalha ao máximo o que sabe de companheiros já presos, evitando falar dos assuntos essenciais. Enfim, procura ganhar tempo para os companheiros poderem se reorganizar a partir da sua queda.

Foi essa a técnica utilizada por praticamente todos os guerrilheiros presos no Araguaia, desde Pedro (de Albuquerque) e Geraldo (José Genoíno), até os últimos a caírem, como Beto (Lúcio Petit) e Dina (Dinalva). Os únicos guerrilheiros do Araguaia que teriam demonstrado disposição para ensaiar a técnica turca, de acordo com militares por mim entrevistados, teriam sido Maria Diná (Dinaelza Santana Coqueiro) e Zé Ivo (José Lima Piauhy Dourado). Zé Ivo, por exemplo, foi escalpelado por um facão com a ponta torta, como um abridor de latas, com a pele sendo rasgada da cabeça aos pés.

O fato de ter usado a técnica francesa no interrogatório não faz de Pedro um suspeito, conforme apontaria a correspondência de Velho Mário ao partido; muito menos Regina; nem Genuíno. Apenas os ajunta em uma mesma História com desfecho trágico.

O relevante é considerar que descobrir a guerrilha era uma questão de tempo para os militares, pouco importando quem seria o “peixe” a ser “pescado” na malha fina da repressão política. Em algum momento, os militares juntariam informações e chegariam lá. Dentro desse contexto maior de repressão, torna-se quase indiferente apontar eventuais culpados. Ao contrário, são vítimas. Pelo menos, seguindo a dialética de Benjamin, são vítimas das chamadas “fissuras da História”.

No caso específico de Criméia, sua “missão de reconhecimento” guarda condições singulares, dado seu relacionamento amoroso com um dos principais agentes da repressão. Nesse caso, pode-se questionar se ela poderia ser incluída entre as “vítimas da história”, segundo o conceito benjaminiano. Ou entre os algozes.”

 

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Disponível em: https://arepublica.com.br/assuntos-nacionais/o-romance-da-guerrilheira-com-o-torturador