Por: A República

 

Genoino no Araguaia: mitos e verdades

Um livro revelador sobre a Guerrilha do Araguaia lança agora luzes sobre uma das mais polêmicas passagens da história brasileira, mitificada tanto pela esquerda quanto pelos herdeiros da memória do antigo regime militar. De autoria do jornalista e historiador Hugo Studart, ex-Veja e Istoé e colaborador de A República, “Borboletas e Lobisomens”, revela com base em farta documentação e depoimentos quem foi quem na luta, que envolveu execuções, tortura, delatores e desaparecidos, que são pela primeira vez identificados e contabilizados.

Entre outras historias surpreendentes, Studart narra até um caso de amor entre uma guerrilheira e um sargento torturador. Mostra ainda que o ex-deputado José Genoino, uma das principais lideranças fundadoras do PT, nunca delatou seus companheiros – pecha que o perseguiu por mais de 40 anos. É sobre ele o primeiro de uma série de trechos do livro que A República reproduz aqui, em primeira mão e com exclusividade.

Numa época em que a história do regime militar tem sido revisitada com grande repercussão, especialmente após a divulgação de um relatório da CIA segundo a qual o ex-presidente Ernesto Geisel sabia e teria participado da decisão de assassinar integrantes da esquerda durante seu governo, “Borboletas e lobisomens” separa as histórias criadas pelos participantes do conflito entre as versões ideológicas e a realidade.

A obra, com 660 páginas, mostra segredos que tanto os militares quanto a esquerda militante procuraram manter ocultos ao longo dos últimos quarenta anos. Após nove anos de pesquisa, acessando mais de 15 mil páginas de documentos secretos das Forças Armadas e as memórias de guerrilheiros sobreviventes, militares e de camponeses, Hugo traz histórias inéditas e fotografias que novamente dão vida a guerrilheiros, militares e camponeses.

“É uma obra ideologicamente equilibrada, construída com um rigor acadêmico raro e em narrativa com viés literário”, explica Carlos Leal, editor da Francisco Alves. Studart já publicou um livro sobre o tema, A Lei da Selva, que conta como os militares venceram os militantes do Partido Comunista do Brasil, PC do B, organização que patrocinou a guerrilha. Agora, apresenta o mesmo episódio sob o ponto de vista dos guerrilheiros, escrevendo sobre suas vidas, seus sonhos e reconstituindo a morte de cada um deles.

DELAÇÃO PREMIADA

O livro mostra que sete guerrilheiros, há muito na lista de desaparecidos políticos, na verdade, fizeram acordo de delação premiada com os militares e trocaram de identidade em um programa de proteção às testemunhas.

Conta também a história de uma guerrilheira envolvida amorosamente com um sargento do Exército que a interrogou, chefe da equipe de tortura e execução de prisioneiros. Revelou ao militar os esconderijos dos guerrilheiros. Dias depois, cinco guerrilheiros seriam mortos nesses pontos – dentre eles, o pai de seu filho.

Studart traz informações que confrontam diretamente a narrativa dos militares. Há casos como de uma guerrilheira que foi enterrada viva, aos 20 anos; de outro que teve o pescoço serrado por facão cego enquanto agonizava; ou ainda a descrição detalhada de uma série de execuções de prisioneiros pelo Exército. Ao final, ele apresenta um apêndice detalhando nomes, funções e atos de mais de 50 oficiais das três Forças Armadas que atuaram nos combates do Araguaia.

DESAPARECIDOS E EXECUTADOS

Pela primeira vez, se estabelece o verdadeiro saldo do fratricídio, ocorrido entre abril de 1972, quando os militares chegaram à região do Sul do Pará, e outubro de 1974, quando foi morta a última guerrilheira. Segundo a pesquisa de Studart, dos 59 guerrilheiros desaparecidos, 29 morreram em confronto na mata e 22 foram executados. Um guerrilheiro foi “justiçado” (executado) pelos próprios companheiros; e sete desaparecidos sobreviveram – fizeram delação premiada e trocaram de identidade.

Entre os moradores da região, pelo menos 10 deles foram mortos pelos militares e cinco foram “justiçados” pelos guerrilheiros. Há ainda 21 nomes da região que constam em documentos militares com paradeiro “desconhecido”, mas cujos destinos demandam investigação. Assim, o saldo pode chegar a 36 camponeses mortos.

Por fim, pelo menos 10 militares morreram no Araguaia, de acordo com documentos confidenciais do Exército obtidos pelo pesquisador. Como saldo, 51 guerrilheiros, 10 militares e pelo menos 15 camponeses que tombaram naquela aventura.

TRECHO EXCLUSIVO

A República vai publicar, com exclusividade, alguns trechos da obra. A começar, por uma dos detalhes mais polêmicos desse episódio: afinal, o ex-guerrilheiro José Genoino delatou ou não delatou os próprios companheiros? Studart dedicou um longo capítulo sobre a caçada de mais de 40 anos ao suposto delator da guerrilha, no qual é dedicado um longo trecho sobre a prisão e depoimento de José Genoino. Segundo a conclusão do autor, com base no depoimento de militares, Genoíno atuou de forma muito inteligente para enganar seus inquisitores – e não traiu sua confiança.

Após os depoimentos em Brasília, os guerrilheiros homens, todos eles, sem exceção, entre maio e junho de 1972, seriam levados de volta ao Araguaia para “missões de reconhecimento”, exatamente como ocorrera com Pedro Albuquerque. Assim, foram obrigados a fazer suas “missões de reconhecimento” os prisioneiros Dagoberto Alves Costa (Miguel) e Glênio Fernandes de Sá (Mário). José Genoino (Geraldo) foi levado de volta junto com Dower Cavalcanti (Domingos). Nessa missão, Genuíno foi fotografado por um militar em momento de descanso, fumando, mas com as mãos amarradas por pano.

Desde a década de 1990, quando emergiu como uma das estrelas do Partido dos Trabalhadores, PT, na política nacional, militares passaram a vir a público afirmar que ele, quando preso, teria ajudado o Exército a desbaratar a guerrilha. O SBT Repórter, por exemplo, veiculou em 1996 uma reportagem especial sobre o Araguaia na qual Genoino era apresentado como suposto delator Quando seu partido chegou ao poder pela eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência, em 2002, as acusações aumentaram.

O ex-capitão e deputado Jair Bolsonaro já fez pelo menos quatro pronunciamentos na Câmara acusando Genoíno, com todas as letras, de “traidor” – e ainda coloca suas falas disponíveis na internet. O coronel Lício Augusto Maciel, por sua vez, é outro que desde o lançamento do seu primeiro livro, vem constantemente escrevendo contra Genoíno, como também concedendo entrevistas orais sobre como teria sido seu depoimento na prisão.

Lício Maciel revelou a Maklouf Carvalho que o guerrilheiro teria prestado depoimento ainda na mata, quando ameaçaram castrá-lo, mas que não o torturaram. Lício apenas teria lhe dado um “telefone” – prática de bater com as duas mãos abertas nos ouvidos do outro. Teria sido um “telefone muito bem dado”, explica o coronel, mas ele não teria sido torturado.

Na mesma obra, Genoino explicou ter sofrido torturas extremadas já em Brasília, quando teria começado a contar aos poucos o que sabia, administrando as informações para preservar sua vida e ao mesmo tempo dar tempo de os companheiros escaparem. Sustentou a versão da tortura em narrativa oral para esta pesquisa.

Aqui, um trecho de “Borboletas e Lobisomens” sobre Genoíno:

***
GENOINO FOI LEVADO DE VOLTA AO ARAGUAIA, em “missão de reconhecimento”, em meados de maio de 1972, por ordem do general Bandeira. Foi levado em uma camionete militar, de Brasília a Xambioá. Quando estavam na rodovia Belém-Brasília, perto de Anápolis, encontraram-se com o chefe da 2ª Seção (Inteligência) da 3ª Brigada de Infantaria, major Gilberto Airton Zenkner. Ele notou que o prisioneiro estava descalço e algemado. O major então disse aos subordinados, de acordo com sua narrativa a esta pesquisa:
“Ele não vai aguentar andar na mata descalço; vai se arrebentar todo.”

Então deu ordens para que lhe comprassem botinas e lhe tirassem as algemas durante a viagem. Disse a Genoioi:
“Mas se tentar fugir, recebe um tiro na testa, ouviu?”

Genoíno concordou e não tentou fugir.

Um incidente ocorreria naquela missão. Genuíno estava em companhia de Dower Cavalcanti (Domingos). Semanas antes, Dower teria abandonado a área assim que soube da chegada dos militares. Teria ido à casa de um caboclo e pedido para chamar o Exército para se entregar, o que, no imaginário dos guerrilheiros, seria deserção. Essa informação sobre as circunstâncias da saída de Dower da guerrilha está registrada em documento, o depoimento do guerrilheiro Dagoberto Alves Costa. Ambos se conheciam da militância estudantil de Fortaleza Dower prestara depoimento, ainda no Araguaia, ao tenente Vieira de Sá, do Batalhão de Guerra na Selva de Belém. Fazendo uso da técnica na qual simula empatia pelo prisioneiro, o tenente disse se colocar no lugar do guerrilheiro e que não deixaria lhe fazerem mal. Dower então falou. O depoimento teria sido quase uma conversa amena, testemunhada por outros guerrilheiros, como Genoino.

Foi nesse contexto que, semanas mais tarde, Genoino e Dower retornariam juntos ao Araguaia. Genoino então recusou-se a dividir a mesma barraca com o Dower. “Não vou dormir com traidor”, teria dito. Os militares aquiesceram. Instalaram os prisioneiros em barracas separadas. Esta história me foi revelada pelo coronel Gilberto Airton Zenkner, que durante o episódio tinha a patente de major. Consultei Genoino: “Já se passou muito tempo, não quero falar disso”, respondeu.

Trata-se de um indício de que o próprio Genoino, na ocasião, tecia uma auto avaliação indulgente sobre seu depoimento aos militares – e uma avaliação implacável em relação a um camarada de armas. Naqueles dias, os militares distribuíram um panfleto aos guerrilheiros, jogados de avião e assinado por Geraldo (Genoino), no qual pedia aos camaradas que se entregassem e prometia que seriam bem tratados. Mas, afinal, qual teria sido a relevância do depoimento de José Genoino Neto no desvendar da Guerrilha do Araguaia? Com a palavra, o coronel Gilberto Zenkner: “Ele levou a equipe aos locais que havia indicado no depoimento. Mas a equipe avaliou que não estava colaborando, ele simplesmente não tinha opção”, relata.

Um dos militares que o interrogou em Brasília, codinome Dr. George, esclarece que Genoino teria de fato conseguido administrar com extrema inteligência seu interrogatório: “Ele sabia que cedo ou tarde contaria, todos acabam contando”, explica o militar:

“Mas ele foi administrando bem as informações que soltava. Dialogava, discutia doutrina, não provocava e conseguia ir ganhando tempo. Seu depoimento foi fundamental para entendermos como a guerrilha estava estruturada e a real dimensão do inimigo. Mas nenhum guerrilheiro caiu por causa dele. Quando íamos checar suas informações, já não havia mais ninguém no local.

Durante a revisão desta obra, enviei para Genoino os originais do trecho acima para sua avaliação. Ele não solicitou nenhuma alteração. Apenas pediu para que acrescentasse uma única frase. Com a palavra, José Genoino: “Nos meus depoimentos, não tem nenhuma informação que tenha prejudicado a guerrilha”, afirma. “Tudo o que contei já era coisa pública.”

 

Disponível em: https://arepublica.com.br/assuntos-nacionais/livro-sobre-araguaia-mostra-que-genoino-nao-traiu