Shakespeare diria “Muito barulho por nada” essa fuzarca em torno do documento da CIA revelando que o ex-presidente Ernesto Geisel deu ordens de matar prisioneiros políticos da ditadura militar. Esse documento não diz nada de concreto além de um “ouvi falar” de um agente anônimo e com fontes ocultas. Por outro lado, há muito que a historiografia brasileira vêm registrando, a prestações, a participação de Geisel na parte mais sombria da repressão, inclusive com documentos. Ora, basta juntar algumas pontas de um farto conjunto comprobatório para constatar que Geisel não apenas sabia das torturas e execuções de prisioneiros, como deu ordens. Vamos lá:

1) O comandante plenipotenciário da repressão política, desde 1966, era o general Orlando Geisel, irmão de Ernesto, ministro do Exército de Costa e Silva e de Médici. O general Orlando chegou ao colégio de generais que escolheria o sucessor de Costa e Silva ungido presidente da República. Como estava em crise cardíaca, achou por bem descarregar seus votos em um antigo subordinado da maior confiança, Emilio Médici. O primeiro decreto de Médici ao assumir a Presidência foi dar poderes ditatoriais a Orlando para reprimir as guerrilhas urbana e rural, por quaisquer meios. Inverossímil acreditar que os irmãos Orlando e Ernesto não tenham conversado abertamente sobre o assunto quando o segundo subiu à Presidência.

2) Elio Gaspari, no livro “Ditadura Escancarada”, relata nas páginas 402 a 404 que, em 19 de janeiro de 1974, o general Geisel teria tomado conhecimento oficial das práticas de exceção no Araguaia e dado sinal verde para prosseguir. Gaspari chega a transcrever parte do diálogo que Geisel manteve com o tenente-coronel Germano Armani Pedrozo, do Gabinete Militar da Presidência, no qual ele relata que o Exército já teria “liquidado” com “uns 30” guerrilheiros, alguns em ação, outros presos e executados. Trata-se do único documento concreto que até agora emergiu com provas concretas da participação de Ernesto Geisel nos porões.

3) Médici queria acabar seu mandato revogando o AI-5. Contudo, Geisel pediu com muita ênfase para que não fizesse isso. Argumentou que seria mais prudente manter os poderes discricionários até terminar o perigo “terrorista”. Essa informação ainda é inédita. Vou publicá-la na forma de um depoimento-memória do médico pessoal e confidente de Médici.

4) Quando Ernesto Geisel assumiu a Presidência, a 15 de março de 1974, de março de 1974, a guerrilha urbana já havia sido desbaratada por Médici e Orlando Geisel. Mas a caçada aos guerrilheiros do Araguaia estava em seu ápice. Entre março de 1973 e setembro de 1974, entre 10 e 12 guerrilheiros do Araguaia foram executados depois de presos, segundo revelo em meu livro “A Lei da Selva”. No próximo livro, “Guerrilheiros e Lobisomens”, que chega às livrarias em fins de junho, detalho que Ernesto Geisel deu ordens para prosseguir com a tortura e as execuções de prisioneiros. Mandou prosseguir até a execução da última guerrilheira, Walquíria Costa, em outubro de 1974.

5) Ainda em 1974, Ernesto Geisel e o novo ministro do Exército, Sylvio Frota, mantiveram uma caçada implacável à direção do Partido Comunista Brasileiro, o PCB, que era de linha pacífica desde 1956. Em fevereiro de 1974, os militares simularam um assalto no aparelho onde morava em São Paulo o segundo homem na hierarquia do partido, Giocondo Dias. Em março, é morto em Uruguaiana, fronteira gaúcha com a Argentina, o primeiro dirigente do PCB, David Capistrano da Costa. Tentava retornar ao Brasil. Morre junto seu motorista, também militante. Em março, matam outro dirigente, Luiz Inácio Maranhão Filho; em abril, o ex-deputado João Massena de Melo e o ex-tenente Walter Ribeiro. O mortícinio é interrompido pelas severas medidas de segurança baixadas por Giocondo Dias.

6) As eleições de 15 de novembro de 1974 golpeiam o projeto de Geisel de institucionalizar o Estado militar. A oposição obtém 11 milhões de votos e elege 16 senadores e 175 deputados federais. A culpa foi do Partidão, pensaram os militares. Os comunistas já estavam infiltrados nos meios de comunicação, argumentaram. E estavam mesmo. O velho PCB, de fato, teve um papel fundamental na derrota eleitoral do regime. A reação foi violenta. O ano de 1975 foi particularmente terrível para o PCB.

7) No dia 11 de janeiro de 1975, são presos, torturados e mortos Elson Costa e Hiram de Lima Pereira. Em fins de fevereiro, Jayme Amorim Miranda, é preso e assassinado no Rio de Janeiro. Era o terceiro membro da Comissão Executiva e o primeiro do Secretariado do Comitê Central a ser morto. Em maio, morre o operário Itair José Veloso, membro do Comitê Central. Também é preso outro dirigente Aristeu Nogueira Campos, que sobreviveu. Em setembro é preso e executado o dirigente José Montenegro de Lima. Em outubro pegam Orlando Bonfim Jr., dirigente estadual em São Paulo.

8) Na sequência, vão buscar Wladimir Herzog em seu posto de trabalho, na redação da TV Cultura. Ele não era dirigente, apenas militante de uma célula de jornalistas. A esta altura o PCB, dentro do Brasil, já estava destruído. Já estavam pegando militantes. A morte de Herzog repercutiu ao extremo. Protestos no Congresso, imprensa, Igreja, sociedade civil organizada, todos exigiram um basta aos abusos. Não havia qualquer sentido prático ou político perseguir e matar os militantes do Partidão.

9) Mas a Comunidade de Informações nem se abalou. O Ano Novo chegou e partiram para um pente-fino entre os sindicalistas da Zona Leste paulistana. Em janeiro de 1976 essa facção estava no apogeu, preparava-se para escolher o presidente da República na sucessão de Geisel, quando um militar medíocre e banal torturou até matar um operário inocente, Manoel Fiel Filho. Ainda mais inocente que seus companheiros de cela, esses militantes do Partidão – se é que possam existir na Terra homens culpados de crimes tão graves que sejam merecedores de morrer sob tortura.

10) A partir de então, os comandantes militares proibiram a prisão de militantes do PCB. No Rio, ainda cairia a base do partido na Rede Globo, liderada pelo jornalista Maurício Azedo.

11) a morte de Fiel deixou a chamada linha-dura do Exército temporariamente frágil. Abriu-se então uma janela de oportunidade. E Geisel, no mesmo dia em que soube daquele abuso, demitiu sem delongas o comandante do II Exército, Ednardo D´Ávila Melo, um dos próceres da chamada linha-dura. Para o general, obrigado a deixar a residência oficial em 24 horas, foi humilhante. Diria ele, mais tarde, “deselegante”, num eufemismo autoindulgente.

12) Um ano depois Geisel daria um tiro mortal naqueles que preconizavam o endurecimento ainda maior do regime, demitindo o ministro do Exército em pessoa, Sylvio Frota, o comandante-em-chefe da repressão, nome mais forte de então para ser alçado à Presidência. Geisel então impôs seu candidato pessoal à sucessão, João Figueiredo, general comprometido publicamente com a anistia política, a redemocratização e a entrega do poder de volta aos civis.

13) Pouco importa discutir, nestas poucas linhas, se Geisel era um democrata ou um ditador sanguinário. Lembro até que foi em seu governo que ocorreu o desaparecimento de dezenas de exilados ousavam retornar à pátria-mãe. Pouco importa, a esta altura, lembrar que o mesmo Geisel fechou o Congresso Nacional para criar a figura abjeta dos senadores biônicos. Tampouco debater que seu ungido, João Figueiredo, o único general de relevo disposto a obedecer aos caprichos do padrinho, tenha sido um fiasco ao quadrado como governante. O que importa é lembrar que, a partir da segunda metade de seu mandato, Geisel passou a ter um projeto para institucionalizar o regime de 1964, que passava pela abertura política “lenta, segura e gradual” – era esse o seu bordão – e, por conseguinte, pelo fim dos atos de exceção.

14) Por todas essas razões, a surpresa em torno do documento da CIA é resultado da falta de memória histórica e de crítica no Brasil. É um documento de um agente anônimo, que registra informes sem fonte e sem provas, fora de um contexto histórico maior – ainda que de fato seja um informe pertinente. Contudo, é preciso colocar as coisas no devido lugar: trata-se de um informe, um indício, que vem colocar um detalhe a mais no conjunto comprobatório. Sua maior relevância é o fato de ser um documento da CIA.