Delfim Netto foi por muitos e muitos anos minha fonte de informação. Das melhores. Fui apresentado a ele pelo jornalista Elio Gaspari, em 1989, quando era um jovem repórter de Política da revista Veja. Eu o visitava praticamente toda semana, nas segundas feiras, às 7 horas da manhã em ponto, em um casarão que usava como escritório em frente ao estádio do Pacaembu, São Paulo. Sempre arguto e gentil, ora irônico, ora racional, passava-me excelentes pautas ou análises de conjuntura.

Mantinha na parede de seu gabinete, emolduradas, as melhores (e também as piores) caricaturas já publicadas pelos jornais a seu respeito. Sua assistente de longo curso, Betty, pedia a todos para que ele fosse tratado por “professor”, jamais ministro, ou deputado – na ocasião era dono de um mandato federal pelo PDS de São Paulo, hoje PP. Os anos se passaram, trabalhei em muitos outros veículos — mas sempre mantive Delfim como fonte. Tem um bom tempo que não o procuro. O fato é que, para aqueles que o conhecem, não surpreende nem um pouco o envolvimento do velho czar da economia nos esquemas da Lava Jato. Delfim sempre foi, digamos… heterodoxo em suas práticas.

A ASCENSÃO – No início dos anos 60, o comandante da Região Militar de São Paulo era o general Arthur da Costa e Silva. Era general de divisão, três estrelas no ombro. Mantinha uma conta no Bradesco, instituição de médio porte, mais um dentre centenas de bancos em um sistema financeiro totalmente fragmentado. O general Costa e Silva adorava um carteado. Na verdade, era viciado em jogo. Perdia muito. E pagava as dívidas com cheques do Bradesco.

Amador Aguiar, principal acionista do Bradesco, conhecia Costa e Silva. Ao saber de seu vício, colocou um gerente de sua confiança na agência onde o general-comandante mantinha conta. Assim, os cheques sempre eram pagos, mesmo sem fundos. Costa e Silva então se virava para cobri-los nos dias subsequentes.

Em 1964, Costa e Silva ascendeu a ministro da Guerra. Líder da linha-dura, em 1966 conseguiu que o Alto Comando do Exército o impusesse a Castello Branco como presidente da República. Costa poderia ser um homem duro, mas era grato. Um de seus primeiros atos foi chamar Amador Aguiar a seu gabinete, agradecer pelas muitas gentilezas do passado e pedir que indicasse o ministro da Fazenda. Reza a lenda que Amador teria tergiversado em um primeiro momento. O fato é que Delfim Netto sairia ungido daquele encontro.

Nascido em 1928 em uma família italiana do Cambuci, Antônio Delfim Netto sempre foi estudioso – um gênio, garantem seus aliados. Estudou Economia na USP, foi presidente do Grêmio Estudantil e assistente do professor Luiz de Freitas Bueno, um dos mais renomados economistas de então. Sua tese de doutorado foi sobre café. Tornou-se professor catedrático em 1958, aos 30 anos, o mais jovem catedrático da história da universidade. Quando Amador Aguiar o convidou para representa-lo em Brasília, exercia o cargo de secretário da Fazenda de São Paulo, no governo de Laudo Natel.

 

CZAR DA ECONOMIA – Delfim entrou para nossa história como o principal responsável pelo “milagre econômico” do regime militar. Já encontrou o sistema econômico e financeiro brasileiro quase todo estruturado pela dupla de economistas Eugênio Gudin (Fazenda) e Roberto Campos (Planejamento). O modelo, imaginado ainda nos anos 30 por Lord Keynes e adotado pelos militares e pela Fiesp, era basicamente transformar o Estado em indutor do crescimento econômico. Ou seja, acelerar a industrialização por meio da criação de estatais, em consonância com o financiamento público para as empresas privadas. Delfim prosseguiu na mesma estrada aberta por Gudin e Campos – com nuances, obviamentes. Eles, eram liberais clássicos; Delfim, um estatizante compulsivo, a ponto de muitos militares o acusarem de socialista.

O fato é que Delfim começou a colher os primeiros resultados ainda no governo Costa e Silva. Emílio Médici convidou-o para permanecer na Fazenda. Médici tinha por estilo delegar poderes. Como nada entendia de economia, acabou por transformar seu ministro em um verdadeiro czar. Foi no governo Médici que ocorreram os maiores índices de crescimento da história brasileira, de até 14% ao ano. Eram os tempos do “Brasil Grande”, que saíra da acanhada posição de 48ª economia do planeta para 8ª no final da Era Delfim. Eis o milagre.

E quanto ao Bradesco? Ora, Delfim era um contumaz concentrador de renda. No caso dos índices sociais, é célebre sua frase de que é preciso crescer o bolo antes de distribuí-lo. Quanto ao mercado financeiro, o governo passou a financiar a concentração em poucos bancos, criando aquilo que, quatro décadas depois, Lula chamaria de “campeões nacionais”. Foi assim que, com crédito farto e barato liberado por Delfim, o Bradesco saltaria muito rápido de instituição regional para o primeiro no ranking dos bancos privados, posição que ocupou por quase três décadas.

 

EXÍLIO DOURADO – Ernesto Geisel não gostava de Delfim. Enviou-o para um longo exílio de cinco anos em Paris, como embaixador brasileiro na França. Hiperativo, Delfim muito cedo deixaria de lado a tradicional diplomacia de punhos-de-renda para buscar a diplomacia de resultados. O pulo-do-gato foi quando conseguiu se aproximar do presidente Valery Giscard d´Estaing. Delfim vivia trazendo bons negócios para os Brasil, tanto investimentos franceses (e europeus) por aqui, quanto exportações de nossos produtos por lá.

Estaria tudo correndo bem se os militares não tivessem infiltrado um espião na embaixada, o coronel Raymundo Saraiva Martins. Egresso do Serviço Nacional de Informações, Saraiva foi ocupar o posto de adido militar em Paris. Saraiva então produziu um dossiê acusando Delfim de ter recebido 6 milhões de dólares em propinas de fornecedores europeus de equipamentos para hidrelétricas. O dinheiro, segundo a denúncia, seria depositado em um banco suíço. O presidente Giscard era cunhado do banqueiro Jacques De Broissia, diretor do Crédit Commercial de France, banco encarregado de negócios com a América Latina, especialmente com o Brasil.

O SNI, então sob a chefia do general João Figueiredo, futuro presidente, decidiu enterrar por completo a denúncia. Foi nessa época que o embaixador Delfim ganharia um apelido deletério, Monsieur dix per cent, por conta de acusações que jamais foram investigadas, quanto mais provadas. Saraiva retornaria ao Brasil assim que terminou sua missão de dois anos. Seria preterido na promoção para general.

 

A VOLTA DO CZAR – Quando João Figueiredo virou presidente, escolheu o professor Mário Henrique Simonsen como seu ministro da Fazenda. Mas decidiu manter Delfim Netto por perto, no banco de reservas. Arrumou-lhe uma vaga de ministro da Agricultura. O comediante Jô Soares então criou um personagem hilariante, o Dr. Sardinha, paródia de Delfim. Como nada entendia de campo, Dr. Sardinha passava o tempo inteiro dizendo: o pepino tem que pepinar, o tomate tem que tomatar, o chuchu tem que chuchuzar. Ao final, o bordão:

“Eu estou aqui, mas já estou chegando lá”.

Até que certo dia Delfim testemunhou uma briga escandalosa entre o presidente Figueiredo e sua mulher Dulce. A Companhia Siderúrgica Nacional, de Volta Redonda, precisava renovar o seguro. Um dos filhos de Figueiredo, Johnny, o queridinho de Dulce, trabalhava em uma seguradora. Então algum áulico do governo teve a genial ideia de entregar a corretagem para Johnny. Mas era para fazer o seguro; só que ele embolsou o dinheiro. O problema é que ocorreu um acidente e a usina estava sem seguro. Figueiredo espumava, berrava, dizia que iria mandar prender o filho. Dulce, por seu lado, estava histérica com o marido. Ameaçava pedir desquite caso ele não desse um jeito de proteger o rebento.

Foi aí que Delfim entrou e deu um telefonema para algum contato poderoso. Pronto, em poucas horas, estava tudo resolvido. Uma seguradora amiga iria fazer a apólice com data retroativa. Mais algumas semanas e Simonsen caiu do ministério da Fazenda. Foi assim que Delfim voltou ao poder. Na Fazenda, enfrentou uma das piores crises econômicas da nossa história. Foi em suas mãos que ruiu o modelo econômico implantado pela dupla Gudin-Campos e aprofundado por ele próprio. Entregou o país já em hiper-inflação.

 

CONSELHEIRO DE LULA – Em 1986, Delfim conseguiu seu primeiro mandato de deputado federal, pelo PDS paulista. Permaneceria em relativo ostracismo ao longo de 15 anos, durante os governos Sarney, Collor, Itamar e FHC. Renovou seu mandato por sete vezes consecutivas. Era um político discreto, de bastidores. Nunca subia à tribuna, raramente apresentava projetos-de-lei. Mas o mandato, além da imunidade, lhe servia como passaporte para circular nos melhores círculos do establishment e prestar consultoria de negócios.

Paradoxalmente, Delfim voltaria ao poder com a ascensão de Lula e do PT. Já em 2003, primeiro ano do governo, passaria a frequentar o gabinete presidencial a convite de Lula. Na ocasião, cheguei a publicar na revista Dinheiro uma nota sobre o novo melhor-amigo de infância de Lula. Oficialmente, era um conselheiro econômico.

Antônio Palocci era o ministro da Fazenda; sua política econômica era cada vez mais ortodoxa. Delfim costumava então publicar artigos na Folha de São Paulo tecendo loas e boas sobre Lula e Palocci. Seu partido, já rebatizado de PP e sempre sob a liderança de Paulo Maluf, integrava a base aliada do governo. Delfim fazia o papel de tropa-de-choque intelectual de Lula.

Até que um dia publicou uma crítica contundente em sua coluna na Folha. No artigo, Delfim reclamava que o governo Lula estava à sua direita, o que era algo absurdo. Argumentou que um governo do PT precisava estar à esquerda do czar da economia do governo Médici, jamais à direita.

Veio o segundo governo Lula e Delfim continuou frequentando secretamente o gabinete presidencial. Escrevi, então, que ele se tornara também conselheiro político do presidente — e não apenas conselheiro econômico. Nunca soube que estivessem fazendo negócios juntos. Mas não é uma surpresa em se tratando de Antônio Delfim Netto. Trata-se de um triste fim para um homem público que poderia entrar para a história como o principal responsável pelo milagre econômico de priscas eras. Contudo, aos 90 anos, rabisca a última página de sua biografia com um escândalo de corrupção, com direito a busca e apreensão da Polícia Federal.