Fernando Collor de Mello é candidato à Presidência da República. Em se tratando da disputa pela sucessão de Michel Temer, nada mais banal do que um político se lançar a esse pleito. Valéria Monteiro, por exemplo, a ex-apresentadora da Globo que em priscas eras pousou nua para a Playboy e depois exilou-se em Nova York, já providenciou a viralização de um vídeo-manifesto colocando seu belíssimo nome, corpo e alma à disposição dos eleitores – para logo depois dizer que desistiu, mas que pode voltar. Em matéria de opção por beldades, foi substituída por Manuela D’Ávila, autodeclarada comunista, mas deputada que se notabilizou no Congresso essencialmente por exibir ancas de fazer inveja a Valéria Monteiro.

No campo das celebridades, temos Luciano Huck, que se lançou, disse que desistiria e ora desiste de desistir; entre empresários, temos Henrique Meirelles, Flávio Rocha (que já foi candidato em 1994) e, ainda, um certo João Amoedo, que tem feito algum barulho via redes sociais; quatro tucanos ao centro, tendo à frente Geraldo Alckmin; oito que buscam correr pela esquerda, a começar por Ciro Gomes; fora alguns nomes que dizem que não estão a fim, como o ministro Joaquim Barbosa e o general Sérgio Etchegoyen – contudo, tal qual Garrincha diante dos joões, podem a qualquer hora fazer o movimento de “fiz que fui, não fui, acabei fondo”.

Entre candidatos autodeclarados, indecisos ou lançados em balões de ensaio, a eleição de 2018 já acumula 20 possíveis alternativas aos candidatos que ora canalizam as atenções, Lula e Jair Bolsonaro. Por enquanto, o total é de 22 nomes, que até as convenções partidárias, podem se acomodar em alianças, ou crescer. A candidatura do senador Fernando Collor de Mello representa um ponto de reflexão sobre o que ainda há por vir. Pois Lula e Collor na mesma disputa, remete diretamente à confusa, prolixa e inusitada eleição presidencial de 1989, quando tudo aconteceu ao contrário do que previam os mais reconhecidos sacerdotes das análises políticas.

 

FATOR BRIZOLA – A corrida de 1989, é sempre bom lembrar, foi disputada por exatos 22 candidatos. Não se trata de mera coincidência, mas sim do retorno cíclico das mesmas condições de temperatura e pressão, com um sistema político desmoralizado, legendas partidárias esfarinhadas, legislação frouxa e uma enorme demanda do eleitorado por renovação ampla, geral e irrestrita. Foi nesse cenário que aos poucos, a prestações, emergiram 22 candidatos.

Entre janeiro e fevereiro de 1989, todos os analistas políticos, sem exceção, avaliavam que aquela seria a última eleição da velha geração. Na ocasião, o Grande Satã do sistema atendia pelo nome de Leonel de Moura Brizola. Na virada de 1988 para 89, Brizola chegou a usufruir de mais de 50% das intenções de voto nas pesquisas – quase tanto quanto Lula e Bolsonaro juntos. O debate que se punha à mesa é quem seria, afinal, o nome capaz de aglutinar as forças de centro para derrotar Brizola no segundo turno.

ODISSÉIA DE ULYSSES – Foi assim que Ulysses Guimarães, o grande líder da redemocratização, o Senhor Diretas, emergiu como nome natural e de consenso. Ele acabara de exercer com maestria os cargos de presidente do PMDB, presidente da Câmara, presidente da Constituinte e, por vezes, presidente da República em substituição ao desgastado José Sarney. Ulysses era chamado, ironicamente, de tetra-presidente.

Sim, o mitológico Doutor Ulysses era considerado o único capaz de juntar as forças políticas de centro e protagonizar uma odisseia de votos nas cidades e nos currais do Nordeste. Impressiona a similaridade daquela falácia do outrora com discurso do agora a respeito de Geraldo Alckmin, aquele que, para muitos, é o melhor nome capaz de juntar as forças de centro como alternativa à radicalização entre Lula e Bolsonaro.

TURRÃO E PROBO – Mas o PFL, rebatizado de DEM, acreditava ainda possuir os currais do Brasil profundo. Assim, os caciques avaliaram que a melhor estratégia seria lançar candidato próprio, marcar posição no primeiro turno, protagonizar uma enxurrada de votos de cabresto no Nordeste e em Minas Gerais e, assim, negociar no segundo turno uma coligação com o PMDB do Doutor Ulysses.

Foi dessa forma que o PFL lançou Aureliano Chaves. Era um homem duro, turrão; fora governador nomeado de Minas e depois vice-presidente do general João Figueiredo; fora um dos líderes da facção que rompeu com os militares e formalizou a aliança que elegeu (indiretamente) Tancredo Neves e José Sarney. Aureliano era sobretudo um nome com fama de probo. Como a história se repete como farsa, diria Marx, o mesmo PFL hoje quer romper a velha aliança estratégica com o PSDB e lançar outro nome difícil, pouco palatável às massas, Henrique Meirelles.

Janeiro de 1989 terminou com apenas três nomes na disputa: Brizola, Ulysses e Aureliano. Especulava-se também sobre Jânio Quadros. Afinal, como todos acreditavam na ocasião, aquela seria a última disputa com a velha geração.

CAÇADOR DE MARAJÁS – Quando o Carnaval de 1989 passou, começou a surgir no firmamento o nome de um jovem político chamado Fernando Collor de Mello. Era governador de um Estado sem votos, Alagoas. Era jovem demais para pleitear qualquer coisa que fosse, 42 anos, a mesma idade exibida hoje por Luciano Huck. Filho de um ex-senador e empresário, sua família era abastada para os padrões do sertão alagoano, mas não para entrar no jogo-solo de uma campanha presidencial. Também estava sem partido de fato. A nova Constituinte havia estabelecido uma legislação eleitoral frouxa; assim, ele criou. oportunisticamente,  uma legenda para uso pessoal, o PRN.

E tal qual Bolsonaro hoje, Collor tinha somente um discurso moralista contra o establishment político e empresarial, o de “Caçador de Marajás”. E da mesma forma que Bolsonaro vem explorando as redes sociais à revelia da grande mídia, Collor estava desde finais de 1988 visitando rádios de todo o país a fim de fazer sua pregação messiânica contra os funcionários públicos de altos salários, os marajás.

E quando tudo e todos discutiam que iria derrotar Brizola (se Ulysses, Aureliano ou Jânio), Collor começava a se consolidar como a representação do novo: 1% em janeiro, 2% em fevereiro, 5% em março… Quando o Ibope divulgou sua pesquisa de abril, o Caçador de Marajás já despontava com 13% dos votos. Era terceiro colocado, atrás somente de Leonel Brizola (que começava a despencar) e de Jânio Quadros (que ainda subia).

MANOBRA JÂNIO – Foi nesse momento que Fernando Collor passou a organizar seriamente sua candidatura. Até então, era apenas uma aventura para negociar uma vaga de vice ou, quem sabe, um ministério do futuro governo, seja ele qual fosse. Em seu staff, muito poucos, como seu irmão Leopoldo e o tesoureiro Paulo César Farias, o antológico PC Farias. Chegara o momento de começar a arrecadar recursos. A regra do jogo, com o Brasil em hiperinflação, era dinheiro do caixa 2. Um dos primeiros a contribuir foi o presidente da Fiesp, Mário Amato.

O grande adversário de Collor, avaliavam então, era Jânio Quadros. Foi então que Leopoldo Collor concebeu um plano heterodoxo para tirá-lo da disputa. Jânio gostava de viajar. E amava favores de amigos. Foi assim que um amigo de Leopoldo, empresário do setor metalúrgico, ofereceu dinheiro a Jânio para viajar. A ideia era protagonizar um giro pela Europa a fim de chamar a atenção da grande mídia.

Assim se deu: em maio de 1989, Jânio iniciou peregrinação por todos os países onde havia correspondentes de jornais, revistas ou emissoras de TV brasileiras ou latino-americanas. Em cada cidade, entrevistas, visitas, fotografias e sobretudo factoides, uma profusão de factoides que lhe geravam exposição e midia espontânea. O périplo foi um sucesso sob o ponto de vista do marketing político. Quando Jânio estava para prestes a retornar, por sugestão de Leopoldo Collor, seu amigo empresário lhe enviou uma bolada de dinheiro para que esticasse a viagem e a exposição na mídia. Foi até à Turquia e à Grécia, templo da civilização ocidental.

Jânio Quadros só desembarcaria de volta a São Paulo um dia depois de finado o prazo de filiação partidária (ele iria ser o candidato do PTB). Fernando Collor de Mello ficou livre, leve e solto para ser o candidato preferencial dos setores mais conservadores do eleitorado. Com Jânio fora do páreo, a partir daí foi sopa no mel. Entre junho e julho, Collor ultrapassaria a barreira dos 20% dos votos. E Brizola despencava para menos de 30%.

FRAGMENTAÇÃO – Bateu desespero no establishment. Brizola ainda era o favorito. Ulisses não ultrapassava o patamar de 5% dos votos e Aureliano mal atingia 1%. Um aventureiro jovem demais, outsider e não-confiável, com um discurso contra os políticos, despontava como favorito à segunda vaga no segundo turno. Em consequência, uma profusão de novos nomes acabou por conseguir financiamento para suas respectivas ambições políticas.

Paulo Maluf e seu ex-afilhado Guilherme Afif Domingos subiram nas pesquisas para o patamar de 5%, com viés de alta. O Partido Comunista lançou Roberto Freire; Fernando Gabeira apresentou-se pelos Verdes; Ronaldo Caiado surgiu pelos ruralistas; cada um disputando os votos de seus respectivos nichos. E ainda tinha o operário Lula, eterno candidato (perdedor) daquele partido radical, PT, patinando desde o ano anterior no patamar 10% dos votos. Até então não era levado à sério.

Isso deu margem para que legendas de aluguel lançassem nomes exóticos como Enéias, Pedreira e Marronzinho – tal qual hoje se especula lançar Valéria Monteiro, dentre outros. Na ocasião, eram chamados de candidatos “nanicos” e representavam o ápice do fenômeno da fragmentação.

Nesse contexto, um grupo de senadores aloprados do PMDB e do PFL foi a São Paulo convencer o empresário Silvio Santos a se lançar candidato. Ele amou a ideia. E tal qual Luciano Huck hoje, Silvio Santos acabou candidato à presidência da República, por apenas dois meses. E tal qual Huck, sua bolha chegou a terceiro ou quarto lugar nas pesquisas. Até que fosse abatido na decolagem por filigranas jurídicas decididas pelo TRE.

CHOQUE DO CAPITALISMO – Quando setembro chegou, o senador Mário Covas conseguiu alcançar o patamar dos 10% dos votos, disputando o terceiro lugar com Lula. Collor já havia se consolidado em primeiro, com 30% — e não caía de jeito nenhum. Brizola despencara para 20%. Enfrentava sérios problemas em casa, com a esposa Neuza em crise de alcoolismo. Por isso decidira jamais dormir fora de casa. Só fez campanha nas redondezas do Rio de Janeiro, relegando as regiões Sul, Nordeste, Norte e Centro Oeste – decisão que lhe seria fatal.

Nesse contexto, o establishment brasileiro, políticos e empresários unidos, decidiram apostar todas as fichas em Mário Covas. Social-democrata, cassado pelo regime militar, era na ocasião presidente de uma legenda recém-fundada, o PSDB, nascida das costelas do PMDB. No início de setembro, Covas se trancou no gabinete do advogado Jorge Serpa, lobista das Organizações Globo e homem da mais estrita confiança de Roberto Marinho, para redigir a quatro mãos um manifesto à nação, batizado por Serpa de “Choque de Capitalismo”. A grande imprensa aderiu a Covas, por inteira e na íntegra. Doravante, seria o candidato preferencial do Sistema.

As últimas pesquisas eleitorais apontavam que a primeira vaga no segundo turno seria mesmo do outsider Collor, disparado na frente. Quanto a seu adversário, havia um empate técnico entre Brizola, Lula e, um pouco abaixo (mas com esperança), Mário Covas. Abertas as urnas, deu Collor com 30% dos votos, Lula com 17%, Brizola com 16% e Covas com 12%. A diferença entre Lula e Brizola foi de apenas 450 mil votos. O velho político perdeu justamente onde não fez campanha, sobretudo Sul e Nordeste.

Vale lembrar ainda que Maluf ficou em quinto, com 9%, seu discípulo Afif chegou com 4,8% e o velho Doutor Ulysses terminou em sétimo, com 4,7% dos votos. O resto da história é conhecida. No segundo turno, todo o establishment político e econômico, com pavor de Lula, entrou de cabeça no apoio a Collor.

ELEIÇÃO 2018 – As seis eleições presidenciais subsequentes, ocorridas entre 1994 e 2014, ocorreram dentro do paradigma da disputa bipolar, entre um candidato do PT (Lula e Dilma) versus um do PSDB (FHC, Serra, Alckmin e Aécio), com um terceiro candidato tentando se apresentar como alternativa.

A corrida presidencial de 2018 já começou diferente. Desde o ano passado, há uma radicalização entre e Lula e Bolsonaro. Tal qual Brizola do passado, Lula é o Grande Satã do agora, contra quem se juntam forças apaixonadas. Bolsonaro é o outsider da hora, e a exemplo do antigo Caçador de Marajás, vem crescendo junto àqueles que estão muito a fim de apertar o botão do “dane-se”. Sobretudo na periferia.

Geraldo Alckmin, neste janeiro de 2018, posiciona-se como a melhor alternativa confiável de centro. Já governou São Paulo por quatro vezes, sempre com índices de aprovação médios de 2/3 do eleitorado. A lógica cartesiana rege que deveria estar no patamar entre 20% e 25% dos votos. Contudo, como ocorreu com Doutor Ulysses, não está decolando. Os tucanos já cogitam substituí-lo por alguém com mais apelo popular, até mesmo Luciano Huck, em apelação similar àquela em torno de Silvio Santos.

O fato relevante é que, independentemente do que venha a decidir a Justiça Federal sobre Lula, todos os indicadores apontam que a eleição de 2018 será tão fragmentada quanto a de 1989. Até agora, as forças políticas e econômicas estão longe de se entenderem sobre quem é quem, quem vai apoiar quem, e quais serão os candidatos de fato credenciados para a disputa – e quais aqueles que não passariam de figurantes.

Esse tipo de cenário oferece margem para a ascensão tanto de nomes experientes, como Ciro Gomes e Álvaro Dias, como aqueles de fora do sistema, tais como Bolsonaro,  Luciano Huck, Joaquim Barbosa, Valéria Monteiro, João Amoedo… Há margem até mesmo para que um político já dado como morto e sepultado, como Fernando Collor, renasça das profundezas.