Por Hugo Studart

Nunca antes em nossa história foi tamanho o Febeapá retórico, o Festival de Besteiras que Assola o País –título de um livro satírico do saudoso Stanislaw Ponte Preta sobre a mediocridade política que grassava na década de 1960. Uma série de fatos ocorreram nos últimos dias, todos relacionados àquilo que o romano Cícero chamava de Arte da Retórica. Em nosso caso, a falta de arte, de ética ou de substância relevante no uso das palavras.

De todas as sete Artes Liberais clássicas (Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia) , as matérias que Cícero considerava “dignas dos homens livres”, em um esquema científico que tornou-se universal e perdurou até meados do Século XIX, a Retórica é sem dúvida a mais polêmica. Por um lado, vem sendo mais cultuada como essencial para a conquista da Liberdade e a instauração da democracia.

Mas também vem sendo há mais de dois milênios amaldiçoada por ser o caminho mais curto para a mentira, a demagogia e a manipulação do povo. É colossal o poder de uma boa retórica. Foi usada pelo maior estadista de Atenas, Péricles, no apogeu da democracia, para ganhar poderes de tirano. Foi minuciosamente estudada pelo maior demagogo da História, Júlio César, para manipular a plebe, jogá-la contra o patriciado e, assim, terminar com a República. De lá para cá, foi utilizada por homens como Robespierre, Lenin, Hitler e Khomeini para incitar as massas a promover banhos-de-sangue. Mas também foi a principal arma de arautos da Liberdade, homens do quilate de Rousseau, Gandhi, Kennedy e Mandela, e ainda o único instrumento de profetas como Jesus, Maomé, Luther King e Karol Wojtyla.

Apresentada a essência da Retórica, vamos aos fatos do nosso Febeapá:

  1. A chefe do Poder Executivo, Dilma Roussef, que tem exigido dos áulicos o delírio gramatical ser chamada de chefa ou presidenta, vai à ONU e lê um discurso impecável, marcando posição sobre questões delicadas como a criação do Estado da Palestina. De volta ao Brasil, resolve falar de improviso, sem que ninguém lhe sopre ao ouvido ou escreva num papel o que deveria dizer. Primeiro falou a duas rádios de Manaus. Depois, uma entrevista oba-oba à TV Record. Em ambas, tentou forjar uma simpatia que não tem, abusou dos erros de português, dos hiatos provocados por blecautes cerebrais e mostrou a mais completa ingnorança com a geografia pátria. De conteúdo, nada, nada, nada digno de registro. Expôs tão-somente uma retórica tosca, primitiva, incompatível com um adulto alfabetizado. Para quem já divulgou Curriculum Vitae (assim, em latim) se apresentando como PhD em Economia pela Unicamp, a retórica da chefa é uma façanha. O que sai de sua língua é o menor dos problemas. O que mais preocupa é o evidente caos mental.
  2. O chefe do Poder Moderador, Lula, cujo imaginário popular o vê como o “chefe da chefa”, recebeu o título de Doutor Honoris Causa do Instituto de Ciência Política de Paris. Apesar de ter cursado apenas a tal “Universidade da Vida”, foi o sétimo título similar que recebeu. Mais uma vez, fez um discurso de convincente, magnético, carismático, usando a palavras certas no momento exato, gesticulação perfeita, musicalidade impressionante. De conteúdo, apresentou a retórica de um megalômano, superlativando sua própria obra de forma indecorosa, desdenhando dos antecessores como se todos fossem uns escroques, os antecessores daqui e, pasmem!, também os grandes estadistas da Europa. A retórica de Lula resvala cada vez mais na esquizofrenia daqueles messias em cruzada religiosa para salvar a humanidade. Se a pensadora Hannah Arendt fosse chamada a opinar sobre o assunto, diria ela, na melhor das hipóteses, que nosso lider messiânico está tomado de um fenômeno que ela muito estudou – o do político que se deixa levar pela retórica dos “embustes e auto-embustes, mentiras e deslavadas mentiras”.
  3. O chefe do Poder Judiciário, um paulista magistrado de carreira chamado Antônio Cezar Peluso, ora presidente do Supremo, protagonizou uma refrega pública com outra magistrada, a baiana Eliana Calmon, ministra do STJ, ora corregedora-geral da Justiça. Peluso, discípulo dos juristas Miguel Reale (integralista) e Alfredo Buzaid (fascista), mas que chegou à Corte Suprema por escolha de petistas próximos a Lula, queria limitar os poderes do Conselho Nacional de Justiça de investigar e punir magistrados. Eliana, com uma retórica sincera, direta, curta e grossa, bem ao gosto de ACM, o saudoso Babalorixá da Bahia, ela disse que a “Justiça sofre com bandidos de toga’”, que o exame dos limites de atuação do CNJ seria “o primeiro passo para a impunidade da magistratura, que hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga”. Ela também indagou: “Sabe o dia em que eu vou inspecionar São Paulo? No dia em que o sargento Garcia prender o Zorro. É um tribunal fechado, refratário a qualquer ação do CNJ”. Peluso ficou furibundo. Com uma retórica curvilínea, repleta de metáforas indignadas, acusou a colega de “leviana”, e de “lançar, sem provas, dúvidas sobre a honra de milhares de juizes que diariamente se dedicam ao oficio de julgar com imparcialidade e honestidade”.

Ora pois, será que o paulista e a baiana estariam se referindo a dois universos distintos? Não! Na essência, eles só divergem nos conceitos e estilos da retórica. Eliana é da escola clássica do grego Platão e do romano Catão (aquele que bradava da tribuna do Senado: “delenda Cartago”, “destruam Cartago”), na qual ladrão é tratado por “ladrão” e patife por “patife”. Peluso é da escola medieval de Santo Agostinho, a dos beletristas, do rococó gongórico, na qual roubo é chamado de “desperdício”, ladrão de “suspeito” e crime de “transgressão”.

 

            O caos mental presidencial

Em nosso mundo pós-moderno, a retórica está presente no centro dos acontecimentos políticos mundiais, através do protagonismo de mestres da palavra como Obama, Lula e Hugo Chávez. No Brasil do tempo presente, desde a campanha presidencial se critica retórica tecnicista e confusa da presidente Dilma. Deveria Dilma fazer cursinho de oratória para aprender a falar? Para que, se já usufrui de índices inacreditáveis de popularidade? Ademais, em nossa sociedade da comunicação de massas, o principal instrumento da retórica já não é mais a língua dos homens, e sim a linguagem da TV. As técnicas mudaram. Mas a essência permanece. Eis o xis da questão.

A retórica, quando inventada pelo gregos e lapidada pelos romanos, estava embalada em valores morais, éticos e políticos. Era um instrumento estudado e usado para a conquista e a manutenção da Liberdade, da Democracia e da República. Hoje essa arte liberal atende por uma nova nomenclatura, Comunicação, e ganhou três diferentes ramos, jornalismo, publicidade e propaganda.           Cabe então fazermos a pergunta essencial: será que em nossa sociedade de massas, global e pós-moderna, a retórica sem sido utilizada com fundamentos morais e valores éticos? Mas que valores, afinal, seriam esses? Reza um velho ditado que, quando se perde o rumo, a melhor maneira de reencontrá-lo é retornar ao início do caminho. Nesse caso, a Grécia do Século V a.C., quando pela primeira vez caíram os reis tiranos para que se instaurasse o governo do povo, batizado de democracia.

            Foi assim, com a invenção da democracia, que a oratória passou a ser uma necessidade essencial do cidadão, que teria de defender seus direitos nas eclésias, as assembléias do povo. Pouco a pouco, começaram a surgir profissionais da retórica, ou seja, os advogados. Nos primeiros tempos, eles ainda não representavam seus clientes na tribuna, mas apenas orientavam os discursos, quando não os escreviam totalmente, obrigando os clientes a decorá-los para uma exposição correta e eventual ganho de causa. Hoje os profissionais da retórica atendem pelos nomes de ghost-writers e de marqueteiros políticos. Todo e qualquer político mediano tem os seus, dos melhores oradores, como Obama, aos piores, como Dilma. Até aí, tudo bem.

O que se discute é, afinal, o que estaria por trás da retórica tosca, infantil e caótica de Dilma? O que estaria acontecendo com sua cachola, sua usina de pensamentos, quando nossa presidenta expele pela língua tantas besteiras por improvisos quadrados?  O problema da retórica presidencial, enfim, não está no estilo do que foi exposto, mas sim na essência do se encontra oculto.

Lula, a culinária e os homens de bem

Os sofistas foram os grandes cultores da retórica. Para compreendê-los, basta pensar em Lula falando. Seus predecessores eram bons nisso. Até que o filósofo Sócrates iniciou suas brigas sem fim com os sofistas, acusando-os de fazer uso de truques lógicos e jogos de palavras, de artimanhas e sortilégios, que vencem mas não convencem. Nos diálogos registrados pelo discípulo Platão, Sócrates condena a retórica como uma espécie de rotina para produzir prazer e satisfação ao corpo. Para ele, a retórica pertence à adulação, assim como a culinária, a sofistica e as indumentárias.

“A meu ver, essa prática compreende várias modalidades, uma das quais é a culinária, que passa, realmente, por ser arte, mas que eu não considero como tal, pois nada mais é do que empirismo e rotina”, disse Sócrates. “Como partes da mesma incluo também a retórica, o gosto da indumentária e a sofística”.

            Coube a Aristóteles a tarefa de sistematizar o assunto, no tratado Arte Retórica, procurando um meio caminho entre Sócrates e os sofistas, e encarando-a como uma arte que visa descobrir os meios de persuasão possíveis para os vários argumentos. Por isso a turma do marketing e da chamada Nova Economia tem buscado redescobrir os pensadores clássicos. Aristóteles, que também criticou os sofistas, subordinou a retórica ao conhecimento da verdade. Atribui-lhe uma função moral ou social e colocou-a a serviço da virtu, a virtude.

Quando Roma tomou conta de todo o mundo, absorvendo por completo a cultura grega, a arte de falar em público encontraria grandes estudiosos como Catão, Cícero e Júlio César. Surgiram as escolas de Gramática, de Filosofia e de Retórica. Cícero queria formar o orador instruído capaz de aprender rapidamente qualquer assunto e falar dele com uma eloqüência desenvolta. Ele associou-a intimamente à Filosofia, chamando-a de ratio dicendi (razão que diz), e deixando claro que, além da verdade de da virtude, a arte retórica exige sólidos conhecimentos, não se reduzindo à mera aplicação mecânica de regras de eloqüência.

Nos séculos I e II, a Era do Imperadores Sábios (Nerva, Trajano, Adriano, Antonino Pio e Marco Aurélio), a concepção da cultura retórica chega a seu apogeu. É dessa época a obra máxima de Quintiliano, Instituição de Oratória, o mais sistemático tratado de educação do mundo antigo. Para ele, o orador deveria ser a síntese do homem culto, sábio e honrado. Quintiliano, como Aristóteles, queria formar o homem de bem que põe a eloqüência ao serviço da virtude. Com a instauração da ditadura imperial, iniciada por Cômodo e seguida por Nero, Calígula e outros de triste memória, a retórica deixou de representar uma preparação para a vida.

Esse é outro xis da questão. Lula tem uma oratória rara, espetacular, impulsionada por uma genialidade intuitiva e um carisma que só encontra explicações na metafísica. Quando Lula apareceu no firmamento político, intelectuais da fundação do PT, homens como Hélio Bicudo ou Plínio de Arruda Sampaio, até que tentaram forjá-lo na escola do idealismo marxista e usar seus dons naturais de oratória a serviço do bem comum. Ou seja, tal qual Aristóteles, Cícero e Quintiliano, os intelectuais petistas tentaram envernizar Lula com seus conceitos de Virtude e seus valores e verdades sobre o que seriam os homens de bem. Mas Lula, como se sabe, sempre gostou de fugir da escola. Vive se gabando disso em seus discursos. Preferiu, assim, o caminho da eloquência oportunista de Protágoras, o mais famoso dos sofistas. O que preocupa é que, ultimamente, cada vez mais sua retórica converge para aquela escola de valores fundada por Cômodo, Nero e Calígula.

Preocupa mais ainda constatar que prevaricação de quem tem por dever de ofício zelar contra a anomia retórica dos líderes políticos contemporâneos. Quando o professor-doutor Richard Descoings, diretor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, o Sciences-Po, foi indagado por uma jornalista brasileira por qual razão uma instituição de 140 anos, das mais respeitadas do mundo, estava concedendo o título de Doutor Honoris a um político que tanto tolerou a corrupção (ela não chegou a lembrar das deslavadas mentiras), ele saiu-se com a seguinte resposta:

“O Sciences-Po não é a Igreja Católica. Não entra em análises morais, nem tira conclusões apressadas. Deixa para o julgamento da História este assunto e outros muito importantes, como a eletrificação das favelas em todo o Brasil e as políticas sociais” (…). Não desculpamos, nem julgamos. Simplesmente, não damos lições de moral a outros países”.

            Sócrates acusava os sofistas de fazer uso de truques lógicos, de artimanhas e de sortilégios, que vencem mas não convencem. Pelo visto, Lula está se saindo melhor do que Protágoras. Ele sempre vence. E convence. Com a palavra, Thomas Hobbes, um dos pais do racionalismo moderno, para quem a figura do retórico é o homem com maior probabilidade de nos fazer descer a um nível inferior ao dos animais:

            “A meta da eloqüência, como ensinam todos os mestres da retórica, não é a verdade, mas a vitória, de modo que a verdade só é alcançada por acidente”.

 

            A nova luz brasileira

Há uma curiosa passagem em um estudo do historiador mineiro José Murilo Carvalho que pode nos ajudar a compreender a refrega judicial entre os ilustres magistrados Cézar Peluzo e Eliana Calmon. Lembra o historiador que, durante a “guerra de idéias” ocorrida no período da independência do Brasil, a retórica era uma das armas principais. Alguns jornais da época perceberam com muita clareza a necessidade de criar uma nova linguagem política e inculcá-la nos cidadãos, educando-o nos novos tempos.

Ele cita o jornal A Nova Luz Brasileira, lançado em meio à uma batalha lingüística entre conteúdo e forma que se travava entre os intelectuais locais. Era uma disputa entre a retórica alegórica, simulada e delicada dos bacharéis, versus o discurso direto e sem eufemismos, “a linguagem da verdade, a linguagem dos bons tempos da antiguidade, a linguagem que entende um povo sincero ainda não afeito à cortesania de cortes corrompidas, a linguagem que tem todo cidadão honrado”. O jornal pretendia restaurar o que seria a “virtude antiga”, não deturpada pelos hábitos cortesãos. Publicou o jornal:

“Essas pessoas delicadas torcem o nariz, por exemplo, quando um ladrão é chamado de ladrão, um patife de patife. A linguagem delicada chama roubo de desperdício, crime de chalaça, com o fim de reduzir a gravidade da transgresão”.

Como arte de persuadir, a retórica é um instrumento utilíssimo, que se aplica a todas as circunstâncias da vida. Ao analisar a retórica como chave de leitura da história intelectual brasileira, José Murilo lembra a tradicional receita luso-brasileira da arte de persuadir através das práticas retóricas livrescas, dos discursos abundantes em citações estrangeiras típicas de um bacharelismo verborrágico.

Uma “verbiagem oca, inútil e vã, a retórica ora técnica, ora pomposa, a erudição míope, o aparato de sabedoria, uma algaravia afetada e ridícula”, ironizou o ensaista Manoel Bomfim, um dos mais corrosivos intelectuais do nosso Segundo Império. O brasileiro teria antes “amor à frase sonora, ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara”, acrescenta o mestre Sérgio Buarque de Holanda.

Enfim, Cezar Peluso, permanece afeito à retórica oitocentista, “ora técnica, ora pomposa, ao aparato de sabedoria, uma algaravia afetada e ridícula”, repetindo as palavras do mestre Bomfim. Seu discurso representa e expõe a corrente esmagadoramente majoritária do nosso Poder Judiciário, positivista, codicista, ou seja, presa ao absolutismo dos Códigos, cultuando ao extremo os rituais e a pompa, mas absolutamente impermeável aos meandros da sensibilidade humana, muito menos ao clamor das ruas.

Foi Peluso, por exemplo, quem impediu tempos atrás que o caseiro Francenildo fosse à CPI dos Bingos contar o que sabia sobre as orgias sexuais e lobísticas de Antônio Palocci. Quando alçado à Presidência do Supremo, disse que a Corte é um tribunal de princípios, e que “não pode se colocar na arquibancada com a torcida organizada”. Agora fica “p. da vida”, diriam os militantes da Gaviões da Fiel, quando uma colega togada ousa afirmar que “a Justiça sofre com os bandidos de toga”

Eliana Calmon, aquela que disse que só conseguirá inspecionar os tribunais de São Paulo “no dia em que o sargento Garcia prender o Zorro”, representa a “virtude antiga”, tomando aqui emprestada a expressão do editorial do jornal A Nova Luz Brasileira. Ou seja, “a linguagem da verdade, a linguagem dos bons tempos da antiguidade, a linguagem que entende um povo sincero ainda não afeito à cortesania de cortes corrompidas, a linguagem que tem todo cidadão honrado”.

Ainda parafraseando A Nova Luz Brasileira, Eliana Calmon está pouco se lixando para “essas pessoas que torcem o nariz quando um ladrão é chamado de ladrão, um patife de patife”,  e se recusa a usar a linguagem delicada de César Peluso, que “chama roubo de desperdício e crime de chalaça com o fim de reduzir a gravidade da transgresão”.

Eis ai três exemplos da hora do festival de besteiras assola o país. A única boa notícia é que em meio a tantas retóricas toscas, embusteiras e gongóricas, como de Dilma, Lula e Peluso,  começa a reação de novas luzes no firmamento brasileiro.