de Bento Gonçalves

Nova Pádua tem 500 habitantes, mas consegue protagonizar dois fenômenos agrícolas. Encravada numa das mais belas paisagens do Vale das Antas, na Serra Gaúcha, o município é o sétimo maior produtor nacional de uvas. O que mais chama a atenção por lá, contudo, é uma pequena vinícola familiar, a Boscato, protagonista do mais ousado projeto de produção de uvas finas do País. Proprietário de dois nacos de terras que somam 14 hectares, metade de uma gleba da reforma agrária, o patriarca Clóvis Boscato, 56 anos, tinha o sonho de produzir uvas extraordinárias (e vinhos idem) com tecnologia de ponta mundial. Então enviou a filha Roberta para estudar agronomia na capital; e depois mandou que fizesse mestrado em irrigação. Um dia ela voltou para casa com um ideal, encomendado pelo pai, de irrigar cada palmo da terra por gotejamento.

“Pai, é inviável”, decretou.

Antes que o patriarca desabasse de decepção, a mãe Inês decidiu:

“Então vamos fazer”.

Cinco anos depois, cada centímetro da terra dos Boscato é irrigado é por gotejamento –e tudo é controlado por computadores. Há uma estação meteorológica própria que orienta a vazão das gotas para cada micro-clima –no alto do morro, mais seco, vai mais água, na depressão da fralda, menos. As videiras, uma a uma, são podadas pela família e os oito empregados, apenas sete ramos para cada lado, e eles só deixam amadurecer dois quilos de uva em cada planta (geralmente são 10 quilos). Assim, toda a força da terra se concentra nos poucos cachos. Resultado: os Boscato estão produzindo 300 mil garrafas de alguns dos vinhos mais conceituados pelos enólogos brasileiros. É quase unânime entre eles que o Gran Reserva Boscato, R$120 a garrafa em São Paulo, é disparado o melhor vinho nacional.

“Sou o primeiro louco do Brasil a arriscar um projeto anti-econômico como esse”, brinca Clóvis Boscato. “Mas tenho o prazer de realizar o sonho de elaborar vinhos excepcionais”.

Ele não é o único. Na verdade, os Boscato fazem parte de um fenômeno novo na economia brasileira. De 2004 anos para cá, estão surgindo no mercado centenas de novas marcas de vinhos finos nacionais –muitos deles excelentes – a face mais visível de uma revolução no campo iniciada na virada do século 21. Em Flores da Cunha, a família Giacomin implantou em 2000 um sistema de condução vertical e hoje, com uma linha de vinho moscatel excelente, está se mostrando bastante competitiva.

Mesa só com vinhos nacionais de qualidade

No Vale dos Vinhedos,em Bento Gonçalves, a família Pizatto também toca um projeto verticalizado, com alta tecnologia e grande valor agregado. A empresa familiar começou fornecendo uvas para a Cooperativa Aurora –mas em 1999 decidiu elaborar seus próprios vinhos finos. Hoje, com nove marcas, coloca há dois anos o Merlot e o Chadornay  no Top-15, os melhores vinhos nacionais.

“Chegou a hora de exportar”, avisa o diretor-geral Flávio Pizatto. “Só vamos competir aqui dentro se tivermos qualidade para competir no mercado global”.

Entre as grandes vinícolas, há casos igualmente interessantes. A família Valduga abandonou por completo os vinhos de mesa e hoje se dedica, de corpo e alma, à produção de uvas e de vinhos finos. O mesmo ocorre com a Miolo, pioneiros no ramo, o caso mais bem sucedido dentre as famílias de produtores de uva –criaram fama só ofertando vinhos finos. Já a Salton, no mercado desde 1910, preferiu manter um pé no velho Chalize, o vinho de mesa mais vendido do Brasil, e outro na elaboração de algumas das preciosidades, como o Salton Merlot Desejo.

Há hoje cerca de 700 produtores de uva e 546 vinícolas no Rio Grande do Sul. Há mais uns 50 produtoresem outros Estados. Segundoa Ibravin, 206 cantinas fazem vinhos finos. A maior parte é de vinhos corretos, na faixa de R$ 15, que competem com os chilenos e argentinos do mesmo segmento de preço. Uns 100 produtores são capazes de fazer vinhos um pouco melhores, os varietais, na faixa de R$ 25. Há ainda umas 20 vinícolas que oferecem vinhos diferenciados, os “reservas”, com preços acima dos R$ 50. É essa a ponta visível da revolução em curso.

“São vinhos dignos das boas mesas”, avaliza Didú Russo, fundador da Confraria dos Sommeliers. “Não podem ser comparados aos grandes vinhos franceses, mas os festejados chilenos e californianos também não podem”.

Há algumas sutilezas nessa contabilidade. Exatos 48 vinícolas se dedicam só aos vinhos finos –como a Boscato e a Pizatto. Outras 158, como a Salton e a Aurora, preferiram manter a estratégia de cautelosa de ofertar tantos os finos quanto os populares. Outra diferença entre elas é quanto ao modo de produção da matéria-prima. As pequenas e médias, como a Sulvin, que optou por varietais raras e vinhos diferenciados, como o Casa di Amaro Sangiovese, estão cuidando das próprias uvas. Já as grandes, como a Miolo, montaram projetos com produtores integrados, que fornecem uvas sob a supervisão da vinícola. Como no caso da Sadia e Perdigão, não são donas do galinheiro, mas determinam qual as raças a serem produzidas, a alimentação das aves e o ponto de abate.

Dois fatores contribuíram para essas boas novas. Primeiro foi o chamado “paradoxo francês” da década de 90, quando as pesquisas médicas descobriram que vinho tinto faz bem para a saúde. O consumidor internacional, de hora para outra, trocou os brancos pelos tintos. No Brasil, os produtores descobriram que não havia uvas suficientes para a produção de tinto fino –mas só dos populares vinhos de mesa. Foi a senha para mudar o foco do negócio e começar a produzir, sobretudo, as varietais Cabernet e Merlot, as que mais se adaptam ao nosso solo.

Outra razão foi a concorrência estrangeira. Em meados dos anos 90 começou a invasão dos vinhos chilenos e, na seqüência, a dos argentinos (hoje eles dominam dois ternos do nosso mercado). Com isso, os pequenos produtores nacionais foram obrigados a reagir investindo também na qualidade. A estratégia de quase todas as famílias tem sido semelhante. Primeiro enviaram seus filhos para estudar enologia nas escolas de Mendonza, Argentina, ouem Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul.

Adriano Miolo, que foi para Mendonza ainda nos anos 80, é o mais afamado dentre os enólogos. Ato contínuo investiram na plantação de videiras de qualidade, a maioria com mudas importadas da França, Itália e África do Sul. O grande boom dessa mobilização foi entre 1999 e 2000 –são necessários cinco anos em média para o vinho começar a chegar ao mercado. O terceiro passo foi construir cantinas (não é fábrica, pois vinho não se fabrica, se elabora) com base tecnológica bastante avançada.

“Para ter chances de disputar o segmento de vinhos finos, é necessário ter uma cantina com tecnologia de ponta, mas não é suficiente”, ensina José Fernando Protas, pesquisador da Embrapa e coordenador Estratégico do Instituto Brasileiro do Vinho. “Tudo começa no campo, investindo na produção das uvas”.

Agora os produtores iniciam fase de conquista do mercado interno, com qualidade e preço. É evidente que a maior parte dessas 206 cantinas que estão fazendo vinhos finos vai ficar no meio do caminho. É o processo natural de depuração de qualquer segmento de mercado.

“Vão ficar os que garantirem matéria prima de qualidade e tecnologia na cantina”, avalia Tarcísio Michelon, presidente da Feira Nacional do Vinho, Fenavinho.

Quando o processo terminar, terá completado um longo ciclo da vitivinicultura brasileira. Até os anos 70, só havia vinhos de mesa. Então se arriscou ofertar alguns vinhos (quase) finos de combate, como Chateau Duvalier (lembram-se dele?), os da Granja União e os da Aurora. De lá para cá, muito se evoluiu –nos vinhedos e nas cantinas. Espera-se mais uma boa nova para a próxima safra em 2008 –o primeiro grande vinho internacional brasileiro. Lá pelas bandas de Nova Pádua, Clóvis Boscato elabora há dois anos um néctar que levará o nome de Anima Vitis, em agradecimento aos deuses. É um assemblage (mistura) de cinco uvas, todas produzidas em sua terra – Merlot, Cabernet Sauvignon, Ancelotta, Refosco e Alicante Buchet. Dias atrás, Boscato mostrou sua preciosidade a um grupo de sommerliers franceses, alemães e britânicos. Foi só elogio. Então o produtor fez a pergunta errada a um francês:

“Então vocês estão dizendo que é um grande vinho”. O francês gagejou e arrematou: “Bem, o Chateau Petrus é um grande vinho, pois tem tradição”, disse. “Mas você está fazendo um vinho digno da melhores mesas internacionais”. Que os deuses, então, bafejem nossas terras.