Um ensaio para tentar compreender por que Lula, Bolsonaro e alguns evangélicos despertam paixões irracionais quando, como profetas, acenam com a Terra Prometida

Por Hugo Studart

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O Brasil está sendo assolado por três fenômenos políticos que, em verdade, são um só. O primeiro se chama Lula – e o fenômeno ao qual me refiro é fato do ex-presidente ter se transformado no profeta de uma religião de fanáticos que estão a pregar fé cega e faca amolada. O segundo atende pelo nome de Bolsonaro – e o fenômeno ora citado é o desse capitão do Exército estar conseguindo criar uma religião de fanáticos que creem, contudo, não veem. O terceiro, por fim, é o fato de um punhado de religiões de fanáticos, sobretudo de matriz evangélica pentecostal, estar tomando conta da política brasileira com força avassaladora e velocidade descomunal.

As manifestações cada vez mais descaradas de intelectuais supostamente esclarecidos em apoio um líder condenado como chefe de uma organização criminosa; as mobilizações cada vez mais explícitas do proletariado periférico (e também da classe média) em prol de um militar com ideias das cavernas para a campanha presidencial da 7ª economia do planeta, são exemplos desse fenômeno que parece físico, mas que em verdade é metafísico. Chama-se, em síntese, Messianismo Político, nomenclatura apontada pela Filosofia e, recentemente, adotada pela Ciência Política.

Esse fenômeno, que tritura a racionalidade e as regras da política, não está sendo manifesto tão-somente no Brasil, mas em todo o planeta. É justamente essa a tragédia maior. Em França, quase chegou lá com Marine Le Pen. Na América, chegou lá com Donald Trump. Na Venezuela, idem com Hugo Chávez que, mesmo morto, conseguiu entregar o malhete a um motorista de ônibus que é alma-gêmea do nosso Bolsonaro. O Oriente Médio, por sua vez, vem sendo varrido há quatro décadas por uma tal de Jihad, vírus letal em forma de Guerra Santa que vem se renovando com grupos cada vez mais radicais, líderes cada vez piores, como Osama bin-Laden, até chegar ao Estado Islâmico, outro fenômeno metafísico que vem conseguindo transformar humanos em monstros ensandecidos.

Guardadas as devidas proporções, todos esses exemplos supracitados – Lula e Bolsonaro, nossos pastores-deputados, políticos como Le Pen, Trump e Maduro, ou movimentos como o Boko Haram e o Estado Islâmico – não podem ser compreendidos ou analisados pela velha classificação Iluminista (esquerda, centro e direita), muito menos pelo racionalismo weberiano da Ciência Política. Pois todos eles, sem exceção, têm em comum o fato de, tal qual os messias, acenarem com a Terra Prometida. E é justamente daí que emerge o fenômeno do Messianismo Político: a existência de líderes ou de movimentos que fazem as massas acreditarem em um futuro melhor – ainda que no chão da realidade seus respectivos projetos apontem para as trevas.

HISTÓRIA COMO CATÁSTROFE – Após a queda das Torres Gêmeas, quando a Jihad Islâmica passou a perturbar de perto a Civilização Ocidental, tornando esses dois mundos inimigos íntimos, a Ciência Política começou a buscar estudar e compreender o Messianismo Político. Contudo, já lá se vai quase um século que o fenômeno foi detectado e conceituado por um grupo de pensadores influenciados por Nietzsche, que buscaram substituir a visão Iluminista e hegeliana da história como progresso, ou seja, a política como evolução, por uma história como catástrofe, decorrência do colapso da razão.

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Destaco quatro deles, por terem as respectivas obras dialogando entre si: Ernest Bloch (1885-1977), autor de “Espírito da Utopia” e “O Princípio Esperança”; Franz Rosenzweig (1886-1929), autor de “Estrela da Redenção”; Walter Benjamin (1892-1940), autor de “Passagens” e das teses “Sobre o Conceito de História”; e Gershom Scholem (1897-1982), autor de “Zohar – O Livro do Esplendor” e de uma vasta hora sobre judaísmo.

Eram todos filósofos, alemães, judeus místicos e profundamente influenciados pelas tradições judaicas. Também se engajaram no movimento sionista – exceto Benjamin. Rosenzweig e Bloch influenciaram na fundamentação do pensamento de Benjamin. Scholem, por sua vez, era seu amigo e correspondente. Há um quinto elemento nesse grupo, o escritor tcheco Franz Kafka, autor de obras clássicas como “Metamorfose” e “O Processo”. Também era judeu místico e cultuava a mesma visão da história como catástrofe. Contudo, era escritor, não Filósofo.

Rosenzweig foi o primeiro a colocar-se em campo oposto a Hegel, pensador maior do Iluminismo, que propôs compreender a história e os fenômenos políticos como progresso, decorrência da evolução contínua da humanidade e da civilização, ou seja, o mundo estaria progredindo sempre para melhor. Nietzsche já fazia críticas à ideia da evolução, mas não conseguiu elaborar de forma clara um conceito que superasse Hegel. Rosenzweig, sim. Ele tinha uma perspectiva da História metafísica, apresentando o homem dentro da moralidade. Ele então propõe uma série de categorias semelhantes às da teologia, criando uma nova categoria do tempo, o “instante messiânico”.

Depois veio Ernest Bloch, um marxista. Parte das ruínas da razão para propor a “utopia” como categoria histórica. A utopia revolucionária em Bloch é messiânica, mas não religiosa. Não desanda em teologia, mas tenta dialogar com o materialismo histórico. Quando Benjamin leu Espírito da Utopia, ficou impressionado. Fascinou-o descobrir as categorias messiânica e utópica na história. Foi assim que Benjamin acabou por apresentar o conceito de Messianismo Político. Mas Benjamin morreu sem terminar sua obra. Coube à sua amiga Hannah Arendt, talvez a maior pensadora política do Século XX,

 ORIGENS DO TOTALITARISMO – Em sua obra mais reconhecida, Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt descreve, em análise extremamente original, a formação do aparato de destruição da Europa dos Séculos XIX e XX, partindo do antissemitismo, depois do imperialismo, até chegar ao comunismo e ao nazi-fascismo – que terminou por conduzir ao Holocausto. Sua originalidade está em reunir no mesmo saco, sob o manto de ideologias “totalitárias”, tanto o comunismo de Joseph Stalin quanto o nazismo de Adolf Hitler. Imagem3

Foi uma ousadia para aqueles tempos de maniqueísmo intelectual do pós-guerra, verdadeira heresia, tanto para a direita macartista quanto para as esquerdas ortodoxas, então embevecidas com o culto à personalidade do ditador soviético, um dos grandes vitoriosos da guerra, “Guia Genial dos Povos”, como o próprio Stalin então gostava de ser aclamado.

Alemã e judia, tal qual o quarteto de antecessores, Arendt começou a escrever a obra para tentar compreender o horror do Holocausto e das atrocidades nazistas, perpetradas também a outras minorias étnicas, como os ciganos, ou a adversários ideológicos, como comunistas e liberais. Muitas vezes chamou as três partes principais de livro — antissemitismo, imperialismo e totalitarismo — de “três pilares do inferno”.

Assim, ela buscou demonstrar que ambos, comunismo e nazi-fascismo, buscavam o “poder total” como fim, e dependiam de alguns fatores em comuns para emergir. Entre eles, a manipulação das massas, a falta de perspectiva crítica em relação ao discurso oficial (tal qual vem ocorrendo no Brasil tanto entre os seguidores de Lula quanto entre os de Bolsonaro) e a banalização de atos de terror (em nosso caro, a banalização dos crimes comum).

Hannah Arendt faz uma distinção muito clara do fenômeno do totalitarismo com relação às ditaduras anteriores ou posteriores – da tirania clássica, passando pelo absolutismo moderno e por “toda sorte de novas tiranias, fascistas e semifascistas, ou unipartidárias”, até chegar às ditaduras militares que proliferaram em especial na América Latina, África e Ásia durante a Guerra Fria. Há inúmeros pontos convergentes entre totalitarismo e ditaduras, tantos que, muitas vezes, a própria Academia costuma confundi-los, observa Arendt.

Duas características únicas distinguiriam os regimes totalitários de tudo mais o que viera antes – ou depois. Primeiro, o apoio fenomenal das massas, conquistado tanto pelo Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, quanto pelo Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A segunda característica observada por Arendt é o de esses regimes estarem alicerçados em “organizações de vanguarda”.

Organizações, segundo ela, que em quase tudo se assemelhavam às sociedades secretas esotéricas, com a criação de um mundo “artificial” e “de aparências” através de complicados rituais iniciáticos, com regras difusas e práticas de idolatria descaradas – por vezes “uma comédia”, observa Arendt.

REALIDADES FICTÍCIAS – Hannah Arendt, contudo, faz uma distinção bastante cristalina e necessária entre os idealistas e utopistas em geral, dos militantes das organizações de vanguarda. Os idealistas, segundo Arendt, podem ser meros “simpatizantes”, muitas vezes usados como massa de manobra política. Têm profissão e endereços conhecidos. Vivem na normalidade do mundo e emprestam uma aparência de “normal” ao movimento.

 

Os vanguardistas, por sua vez, são “iniciados”, políticos profissionais que vivem pela causa e para causa. Somente estes fazem parte do “partido de dentro” e, portanto, poderiam ser ungidos com a honra de fazer parte da direção das organizações da vanguarda. Eles têm natureza paramilitar, ainda que em diferentes graus de militarização, costumam ser “fanáticos” e “confusos” em suas “crenças” e cultuam uma “explicação fictícia do mundo”, cheio de aliados secretos que apenas “não têm ainda a necessária força de espírito e de caráter para tirar as conclusões lógicas de suas próprias convicções”.

Arendt admite desconhecer as origens exatas dessa estrutura organizacional, o que “muito contribui para a esquisitice do fenômeno”. Ela se referia a nazistas e comunistas. Não se sabe quem primeiro decidiu organizar os simpatizantes em grupos de vanguarda, ressalva a pensadora, quem viu primeiro uma força decisiva em si, e “não apenas um reservatório de onde se poderiam arregimentar membros, nas massas vagamente simpatizantes – com as quais todo partido costumava contar no dia da eleição, mas que eram consideradas demasiado flutuantes para serem aceitas como membros”. Arendt lembra que as primeiras organizações de simpatizantes de inspiração comunista, tais como os Amigos da União Soviética, tornaram-se grupos de vanguarda, mas de início eram apenas grupos de arrecadação de dinheiro para o partido.

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PETISTAS E BOLSONARITOS – É necessário muito cuidado para não acusar o PT de Lula de stalinista ou as mobilizações de Bolsonaro de organização fascista. Ambos estão muito longe disso. Ademais, a proposta deste ensaio é extrair ambos, Lula e Bolsonaro, desse clássico conceito binário de esquerda versus direita, democracia e ditadura. Mas ambos se encontram juntos no fenômeno do messianismo.

Além de Getúlio Vargas, Lula é o líder político que mais mobilizou as massas na história do Brasil. Bolsonaro está conseguindo um número descomunal de milhões de “simpatizantes”, segundo a nomenclatura de Arendt. O PT, tal qual o PC soviético, nasceu como partido de massas; hoje, o que resta do antigo PT assemelha-se muito mais a uma Organização de Vanguarda como a descrita por Arendt, uma seita esotérica de fanáticos. Exagero?

Ora, então pensem nos militantes petistas remanescentes, prezados leitores, ou nos Black-Blocs, lembrem-se de seus discursos contra a Rede Globo e o fantasma da Grande Mídia – e assim os senhores compreenderão melhor o que Arendt delineou há quase sete décadas. Seitas esotéricas de fanáticos, gente confusa em suas crenças, sempre buscando “explicação fictícia do mundo”, segundo as palavras de Arendt, sempre forjando uma visão artificial da realidade tomada por inimigos imaginários.

No caso de Bolsonaro, não há qualquer organização ou legenda partidária a lhe dar suporte, mas somente e tão-somente multidões de simpatizantes que, mobilizadas pelas redes sociais, correm aos aeroportos para recebê-lo em euforia. Mas tais simpatizantes, talvez futuros militantes, são igualmente gente confusa em suas crenças, cada vez mais cultuando uma realidade artificial e tomada por inimigos imaginários. E o que vale para os petistas consolidados e para os bolsonaritos em ascensão e, mutadis mutantis, vale também para os líderes políticos evangélicos, Marco Feliciano, dentre outros de triste figura.

O LÍDER MÁGICO – No âmago das organizações de vanguarda, “como o motor que a tudo aciona”, explica ainda Hannah Arendt, assenta-se sempre a figura carismática do Líder. O Líder é em essencialmente diferente dos chefes das demais ditaduras e tiranias. Para começar, deve sua liderança mais à sua extrema capacidade de manobrar as lutas intestinas do partido pelo poder do que às qualidades demagógicas ou burocráticas. “Difere do antigo tipo de ditador por não precisar vencer por meio da simples violência”, diz Arendt. Os déspotas e ditadores também costumam embasar seus atos por ordens, que em geral têm seus fundamentos nas instituições. Um édito real, por exemplo, ou um decreto.

Os líderes da vanguarda, por sua vez, têm vontades. Independem de cargos formais para fazer valer suas ordens. Aliás, não são meras ordens, mas insinuações, expressões de vontades quase diáfanas, entes metafísicos. Como as vontades sagradas dos profetas, “o desejo do Fuhrer (Líder) é a lei do partido”, lembra a pensadora, e “toda a hierarquia partidária era eficazmente treinada para o único fim de transmitir rapidamente o desejo do Líder a todos os escalões”. O Líder, que Arendt faz questão de grafar em maiúscula, tece a intermediação entre o mundo dos homens e o Espírito da Vanguarda: Imagem5

“A suprema tarefa do Líder é personificar a dupla função que caracteriza cada camada do movimento – agir como defesa mágica do movimento contra o mundo exterior e, ao mesmo tempo, ser a ponte direta através da qual o movimento se liga ao mundo.”

Exemplo concreto sobre o que Arendt versa em teoria está no relato do dirigente comunista Diógenes Arruda, o número dois do PCB nos anos 1940-50, e que estava em Moscou chefiando a delegação brasileira ao XIX Congresso do PC soviético, em outubro de 1952, o último promovido por Stalin antes de falecer, em 1953. A cena está descrita no livro “O Retrato”, de Osvaldo Peralva, que fora dirigente (e depois dissidente) do PCB. Ao retornar ao Rio de Janeiro, Arruda relata aos camaradas do partido, extasiado, a cena que testemunhara sobre a participação de Stalin naquele conclave:

“O Velhinho ficava sentado ali, e todo mundo o olhava com carinho. Os médicos proibiram-no de fumar, mas o carinho dos camaradas soviéticos por ele é tamanho que o camarada general Proskriebichiev, seu secretário particular, de quando em quando se levantava e ia, com seu cachimbo fumegante seguro nas duas mãos, passá-lo duas vezes por baixo das narinas do camarada Stalin. E assim, o camarada Stalin, respirando normalmente, sentia o cheiro do fumo e o tragava um pouco de fumaça, sem sequer tocar no cachimbo. Durante o tempo do Congresso, o camarada general Proskriebichiev cuidou assim do Velhinho”. Imagem4

MISSÃO DIVINA – Patético? Sim, absolutamente patético. Tanto o quanto assistir renomados intelectuais brasileiros, professores-doutores como Marilena Chauí, ou ainda políticos de estirpe pretérita, estarem a defender o direito do ex-operário de se esbaldar de champagne RomanéeConti e andar de jatinho, a resmungarem que não há provas contra Lula, por que não prendem o Aécio?, que o juiz Sérgio Moro estaria a serviço da CIA e contra o pré-sal, que tudo não passa de conspiração da Globo e que, agora, a Justiça teria entrado na conspiração golpista quando decidiu julgar o Líder com celeridade. E o que vale para os petistas vale, no oposto-contraditório, para esses seguidores de Bolsonaro Messias Bolsonaro que estão a pregar a intervenção militar.

Esses seguidores, tanto de Lula quanto de Bolsonaro, têm uma fé inabalável de que seus respectivos líderes descerem à Terra com o propósito de carregar o archote de Luz. Seriam eles iluminados em missão divina, uma função que transcende os interesses pessoais. Eles vêm para trazer a redenção do povo brasileiro. Lula, redimir o povo contra as elites brancas e a direita. Bolsonaro, redimir o povo contra a corrupção e a incompetência esquerdista.

Eis aí nossos Profetas, os Escolhidos, os Messias. Eis, com nome e sobrenome, o fenômeno do Messianismo Político instaurado no Brasil. E que Alá, o Misericordioso, nos ajude em 2018.