Residência oficial da Presidência da Câmara: João Paulo Cunha com os jornalistas Hugo Studart e Carla Spegiorin

É curioso eu ter encontrado essa foto antiga, de 2005, no exato dia em que o deputado João Paulo Cunha, do PT, teve a certeza de que será condenado pelo Supremo no processo do mensalão. João Paulo era presidente da Câmara dos Deputados. Eu era editor da revista IstoÉ Dinheiro; estava nesse café-entrevista com a repórter Carla Spegiorin.    João Paulo estava, nessa época, em plena fase de pegar dinheiro com Marcos Valério. Mas ainda não se sabia disso; o mensalão não havia estourado.

Sujeito simpático, esse João Paulo. Afável, conversa boa. Os petistas eram, em sua maioria, a personificação da arrogância. João Paulo, a encarnação da simplicidade. Impossível não gostar dele. Também era uma boa fonte de informação. Tinha bons bastidores a revelar.

Há politicos e autoridades os quais não quero como fonte. Recuso-me até mesmo a apertar a mão. O mais grave é que orgulho-me dessa inflebilidade  –algo não recomendável para um profissional da informação. A maior parte das autoridades , contudo, consigo conviver numa boa, mesmo sabendo que nosso sistema político alimenta-se de caixa 2. Eu conversava tranquilo com o saudoso PC Farias. Um dos meus orgulhos foi ter “descoberto” PC, ainda nas primeiras semanas do governo Collor. Passei a acompanhar suas aventuras de bastidores através de notas (na época eu trabalhava na revista Veja). Fiz boas reportagens “denuncia” sobre seus esquemas. Ao final, fui o único jornalista que PC aceitou receber na cadeia para uma entrevista. PC era divertido, extremamente inteligente.

Com Delúbio Soares a história foi semelhante. “Descobri-o” ainda em janeiro de 2003, logo após a posse de Lula. Fiz na ocasião a primeira reportagem sobre o personagem –nesse caso, relatando seus planos mirabolantes de fazer do PT um partido bilionário. Fiz várias outras revelando seus esquemas, mas nunca com o fígado. Como PC Farias, Delúbio era afável e inteligente.

No caso de João Paulo Cunha, apesar de defender sua punição como mensaleiro, como cidadão, não festejo sua iminente prisão. Tem que ser preso. Mas não festejo. Continuo considerando João Paulo um sujeito afável, tanto quanto o saudoso PC Farias e Delúbio Soares.

Enfim, encontrar essa foto neste exato momento leva a refletir sobre os limites entre um profissional (jornalistas, historiadores, sociólogos, etc) na relação com as fontes de informações. Sabemos que todo sistema teu seus esquemas. Nosso sistema político, por exemplo, é fundamentado no Caixa 2. Logo, é de 90% ou mais as chances de um jornalista ter um político Caixa 2 como fonte de informação. E até mesmo manter uma relação pessoal afável.

Mas tem por obrigação refletir sobre os limites dessa relação. Apesar de PC Farias, Delúbio Soares e João Paulo serem sujeitos simpáticos, um jornalista deve, obrigatoriamente, escrever sobre todos os seus podres. Mesmo que sejam excelentes fontes. Ainda que tenham desenvolvido alguma relação de confiança profissional.

A segunda reflexão diz respeito à suposta obrigação profissional de manter boas relações com todas as fontes. Como já dito, dentro do exercício do jornalismo, jamais aceitei sequer apertar a mão de algumas figuras públicas. Marta Suplicy, Luis Favre, Romero Jucá, Antônio Palocci, dentre muitos outros. Questão de princípios. Tenho meus limites. Em outro campo de trabalho, como historiador, entrevistei muitos militares que participaram da repressão durante a ditadura. Numa boa. Mas tem um deles que jamais tive estômago sequer para cumprimentar: Sebastião Curió.

Quanto aos mensaleiros, se tiver a chance, sou até mesmo capaz de algum dia desses visitar-lhe na cadeia. Como PC Farias ofereceu-me um bom e autêntico Chivas, é bem provável que Delúbio tenha um bom Cohiba para saborear com os convivas. A conversa será melhor se José Dirceu participar. Deliciosa, se eu puder conhecer o ex-carequinha Marcos Valério. Quem o conhece garante que ele seria ainda mais agradável no trato do que o saudoso PC Farias.