“O CRONISTA É O NARRADOR DA HISTÓRIA”

(Walter Benjamin)

Há um fragmento de história esquecido no limbo. É um diário. Ou melhor, é um conjunto de cartas de amor organizadas na forma de um diário. Cometido pela pena do capitão Carlos Lamarca, um dos ícones da revolução brasileira, e endereçado à sua amada Iava Iavelberg, também guerrilheira, acabou relegado aos escaninhos dos arquivos secretos militares. Lamarca amava Iara, que também o amava, e acabaram separados pelas vicissitudes daqueles tempos. Ele, exilado no sertão baiano. Ela, escondida em Salvador. A paixão do capitão pela guerrilheira virou lenda entre a intelectualidade pátria, nossa melhor versão de Tristão & Isolda, Lancelot & Guinevere, Garibaldi & Anita; a velha história do valente guerreiro lutando contra ogros e dragões para provar seu amor pela musa inspiradora. Certo dia, quente e seco, chegou ao capitão a notícia de que sua musa estava morando com outro companheiro de armas. Rua reação foi escrever. Foram 41 dias naquele deserto desnudando sua alma. Tal qual Horácio no exílio, de dia expunha seus ideais políticos, idéias pessoais, sonhos, temores e amores – suas paixões. De noite era só pesadelo: torturava-se de ciúmes. Registrava tudo. O diário jamais chegou à destinatária. Ela morreu antes. Ele, dias depois, tal qual Romeu, assim que soube que perdera de vez a amada. Esses fatos ocorreram em 1971.

Certa feita, em 1974, os militares chegaram a divulgar discretamente o teor daquele diário. Queriam usá-lo como peça de propaganda política, tentavam expor a fragilidade emocional desse capitão-guerrilheiro, que desertou de armas em punho para combater a ditadura – mas acabou perdendo-se numa paixão. Ora, ninguém prestou muita atenção na peça ouem seu conteúdo. Nemmilitantes da revolução, nem jornalistas. Muito menos historiadores, naquele tempo, hegemonicamente marxistas e estruturalistas. Quase quatro décadas depois de escrito, o diário ainda se encontra no limbo da História. Curiosamente, é uma das peças mais ricas para analisar e compreender aquela época que Isaiah Berlin definiu como a “mais terrível da história”.

Desde que Tucídides rejeitou seu mestre Heródoto como historiador porque ele interpretava, opinava, a Teoria da História debate sobre quais seriam, afinal, os “verdadeiros” e os “falsos” objetos do estudo histórico. Heródoto posicionava-se no contexto, deixava fluir suas próprias impressões. Tucídides defendia a idéia de que os fatos falam por si e o resto seria logro. Se pudesse ter acesso ao documento legado por Lamarca, Tucídides decerto o rejeitaria. Quando Benjamin, Febvre e Bloch começaram a reinventar a análise histórica, cada um de seu próprio jeito, surgiram vertentes mais flexíveis, como a História Cultural. Dentro desse campo, uma das correntes que hoje se apresenta é aquela relativa a uma releitura do político pelo cultural, às vezes chamada de Nova História Política. Trata-se de vertente historiográfica onde imaginário, representações e cotidiano reformulam a compreensão do político. O capitão Carlos Lamarca é um personagem singular da nossa história. Pesquisar sua trajetória e analisar seu pensamento a partir dessa vertente historiográfica é um interessante caminho para compreender aquelas conturbadas décadas de 1960 e 1970, seu imaginário e suas representações, tão marcadas pela dicotomia “comunistas versus militares”. A história de Lamarca guarda a possibilidade do encontro desses dois mundos.

 Shakespeare já afirmava que “o curso do verdadeiro amor nunca foi sereno”. O diário de Lamarca guarda impressionante paralelo com o conjunto de cartas de Rosa Luxemburgo a Leo Jogiches, onde ela discute a revolução, mas dedica-se principalmente a falar do amor colossal que sente pelo amante. Como nas cartas de Rosa, nas cartas de Lamarca também há trechos marxistas-leninistas. Tece longas análises sobre a situação política na China, na Mongólia eem Cuba. Comentanotícias sobre a crise na Jordânia e a fome no Paquistão. Chega a comemorar o 28º aniversário da criação do Estado Maior do Exército de Libertação da Albânia, algo que hoje soa insólito. Em meio a isso, desanda a escrever sobre o amor, entrelaçando-o à sua crença na revolução. O diário, em verdade, assemelha-se muito mais a uma longa lírica romântica do que a registros de um revolucionário em armas. Ora, perguntaria um estruturalista, que importância tem isso para o contexto das nações?

Ora, para Duby, o sonho romântico é uma busca de vestígios procurando restituir o passado. Essa busca pelo passado seria a própria busca pela identidade de seu grupo. A transmissão da memória de geração em geração, seja na forma oral ou na escrita, como num diário amoroso, não é só uma questão de sonho romântico. Mas sim, insiste Duby, é a escrita da própria História. Como não temos acesso a todos os vestígios do passado, a História é uma operação de construção. Todo registro histórico foi construído por alguém, a partir dos vestígios a que teve acesso, a partir de suas próprias interpretações. Portanto, escrever a História é uma operação de invenção, tange o ficcional. A memória é um sonho permanente. “Efetivamente, a memória e a história, precisamente na medida em que construída sobre farrapos de memória, são obrigatoriamente seletivas”, diz Duby.

Benjamin nos faz lembrar que Heródoto foi o primeiro narrador da nossa Civilização. Ora, Lamarca fez a narração de suas próprias experiências e sentimentos. Optou pelo formato de crônica escrita. Se Heródoto pode, porque Lamarca não poderia narrar de seu próprio jeito? Só pelo fato de narrar emoções, aquilo que seus companheiros de armas classificavam como “sentimentos pequeno-burqueses”? Pesavento lembra que os homens aprendem a traduzir o mundo em razão dos sentimentos. As sensibilidades seriam as formas pelas quais indivíduos e grupos se dão a perceber, comparecendo como um reduto de tradução da realidade por meio das emoções e dos sentidos. Nessa medida, as sensibilidades não só comparecem no cerne do processo de representação do mundo, como correspondem, para o historiador da cultura, àquele objeto a capturar o passado, à própria energia da vida. “Em suma, as sensibilidades estão presentes na formulação imaginária do mundo que os homens produzem em todos os tempos”, escreve Pesavento.

Ao versar sobre o conceito de História, Walter Benjamin explicou ser impossível conhecer todo o passado, em sua plenitude, da maneira exata como os fatos se deramem seu tempo. Paraele, articular o passado historicamente não significa conhecê-lo como ele de fato foi, mas “significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo”. Benjamin nos trás o conceito das imagens de desejo que reapresentam o mundo. Imagens dotadas de poder mágico de fazer crer, de parecerem verdade, de serem capazes de inverter as relações sociais, fazendo com que os homens vivam por e no mundo das representações. Desta forma, nos mostra que, para proceder à leitura de uma época, é preciso decifrar suas representações. Para Benjamin, as imagens não vêm só do visual, do visível. Tem também das emoções. Também há a imagem invisível, que vem do processo de imaginação. É uma imagem que vem de fora para dentro, tal qual acontece com os artistas, que primeiro criam as imagens internas e depois as expõem na realidade. Benjamin manda ouvir o que não pode ser dito, ver o invisível. Para isso, você só pode conseguir usando o corpo inteiro, todos os sentidos. Inclusive as emoções. Inclusive a razão.

Em seu exílio no sertão, Lamarca comete poesias. Algumas românticas; outras tentam ser épicas. Benjamin lembra que Mnemosyne, a deusa da reminiscência, era para os gregos a musa da poesia épica. Ele afirma que a memória é a mais épica de todas as faculdades. Somente uma memória abrangente permite à poesia épica apropriar-se do curso das coisas, por um lado, e resignar-se, por outro, com o desaparecimento dessas coisas, com o poder da morte. Sobre a narrativa, Benjamin diz ainda que a História nos ensina o que é a verdadeira narrativa. A informação só tem valor no momento em que é nova. “Muito diferente é a narrativa. Ela não se entrega. Ela conserva suas forças e depois de muito tempo ainda é capaz de se desenvolver”.

Em seu ensaio Spie (pistas), Carlo Ginzburg, um dos pais da micro-história e criador do chamado “paradigma indiciário”, ressalta a relevância do detalhe aparentemente sem importância, de uma palavra ou gesto trivial, que leva o investigador – quer seja ele detetive, psicanalista, um médico em busca dos sintomas, ou um historiador — a fazer importantes descobertas. O diário de Lamarca é um desses detalhes que ficaram para trás, despercebido pela historiografia. Permite ao historiador a emergência da subjetividade, uma tradução sensível da realidade de homens de uma determinada época, do resgate de emoções, sentimentos, idéias, temores ou desejos. Benjamin finaliza: “O narrador é o homem que poderia deixar a luz tênue de sua narração consumir completamente a mecha de sua vida”.

(Trabalho para a disciplina Tópicos Especiais em História Cultural 1 – “História, memória e imagens fílmicas”, dentro do Doutorado em História Cultural da Universidade de Brasilia)

 

BIBLIOGRAFIA

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7a ed., São Paulo: Brasiliense, 1994.

DUBY, Georges, LARDREAU, Guy. Diálogos sobre a nova História. Lisboa: Dom Quixote 1989.

LUXEMBURGO, Rosa. Camarada e Amante – Cartas de Rosa Luxemburgo a Leo Jogiches. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

PALHARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. As Muitas Faces da História: Nove Entrevistas. São Paulo : Unesp, 2000.

PESAVENTO, Sandra Jathay. História & História Cultural. São Paulo: Autêntica, 2003.